Saigon

Passeio pelas ruas de Saigon, ou Cidade de Ho Chi Minh, a maior e mais importante e movimentada cidade do Vietnã, e descubro como fazia dela uma imagem completamente diferente. É possível que eu tenha ficado tempo demais sob o intenso bombardeio de filmes produzidos pelo mundo ocidental para representar, sob a ótica deles, a guerra que durou trinta anos e que continuou a provocar sofrimento mesmo após seu fim. No meu imaginário, influenciado por figuras como o Rambo, Saigon estava longe de ser tão interessante e atrativa. Com oito milhões e meio de habitantes, o campo de batalha atual é o seu tráfego caótico. Principalmente, devido às inúmeras motocicletas alucinadas que percorrem ruas e avenidas. Enquanto elas passam apressadamente por mim, ziguezagueando pedestres e obstáculos, eu caminho reta como uma flecha, sem olhar para trás. Sobre a calçada, à espera do momento exato para atravessar uma avenida, percebo que observar os motociclistas é uma atração à parte. Quase todos usam máscaras de proteção contra a poluição, mas à direção parecem contar com a sorte ou com a proteção de Buda, embora sejam assustadoramente habilidosos frente ao desafio de não tombarem em combate. Sigo meu trajeto. Visito um shopping sofisticado. Caminho pelas ruas e vejo lojas de grifes de luxo, vendedores ambulantes, camelôs e mendigos. O inconfundível e tradicional chapéu cônico, o Nón Lá, que eu imaginei ver apenas nas zonas rurais, é também aqui muito usado. O Sol é realmente forte. Entro numa cafeteria e vejo adolescentes matando o tempo e fazendo selfies com amigos. Percorro parques lindos e bem cuidados onde as pessoas praticam tai chi chuan e brincam com as crianças. Os vietnamitas nos observam com discrição, mas se os surpreendemos esboçam um simpático sorriso. O atendente do Mc Donalds me faz rir quando recusa meu pagamento em dólar. Almoço num restaurante que mudou seu nome para 2000 quando recebeu, nesse ano, a visita do ex-presidente Bill Clinton. Os museus preservam um rico acervo histórico sobre suas guerras e há bandeiras do país e retratos de seu ex-líder, Ho Chi Minh, espalhados por toda a cidade. […] Saigon tem edifícios imponentes e conserva muitos prédios em estilo clássico da época em que esteve sob o domínio francês, como a Agência Central dos Correios, a Catedral de Notre Dame e a Saigon Opera House. Tento comprar um souvenir em Cho Ben Thanh, o mercado local, mas ele é claustrofóbico. Os corredores são estreitos, os boxes amontoados e os vendedores insistentes. Apenas 8% da população é católica, mas os enfeites natalinos estão por toda a parte. Tomo uma sopa de noodle, ou pho, o prato mais tradicional e famoso, que inclusive estampa camisetas e canecas vendidas aos turistas nas lojas e barraquinhas de rua. Descubro como a cosmopolita Cidade de Ho Chi Minh protege sua história e vive orgulhosa e intensamente seu presente, sem deixar de olhar para o futuro. É uma cidade de contrastes, como toda metrópole. Tem opulência e miséria. Bagunça e organização. Tumulto e tranquilidade. Discrição e extravagância. E a capacidade de despertar o amor ou o ódio de seus visitantes. O que vai determinar um ou outro sentimento, ou um misto dos dois, serão as andanças de cada um. E também o que seus olhos serão capazes de ver. E enxergar. 

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