Albert Edelfert

Foi durante uma visita ao Museu de Arte Ateneum, em Helsinki, na Finlândia, que um novo artista passou a fazer parte da minha lista de pintores preferidos. Albert Edelfert. Eu desconhecia sua existência até descobri-na expressão de desolação e tristeza no rosto da menina de uma de suas telas. Uma expressão que me fez chorar. “Conveyng the Child’s Coffin” (“Conduzindo o caixão da criança”) é o nome da obra que provocou em mim uma imediata empatia com a garota que parece segurar tão fortemente um frágil e delicado ramo de flores, como se assim pudesse tê-lo consigo para sempre. Como se estivesse sob seu controle o tempo das coisas. Ou como se pudesse transferir para o buquê o grito contido. O sentimento não compreendido. As perguntas sem respostas. A impotência. E a incapacidade de corrigir o que certamente foi um erro do Universo. O seu semblante e o seu olhar perdido me fizeram voltar àquele mesmo vazio onde ela está nesse momento. O vazio para onde são levadas as pessoas que perdem o chão. Que perdem o rumo. Que constatam como é difícil mergulhar nas lágrimas que escorrem do rosto e da alma. Que se sentem desamparadas. Sozinhas. Perdidas. E que desnorteadas tentam desesperadamente encontrar uma saída. E então descobrem que não há saída. Nem de emergência. E que o único meio de voltar ao mundo dos vivos é cavar uma abertura com as próprias mãos, as mesmas que agora tentam encontrar um apoio que lhes impeça a queda. Albert Edelfert. O artista que morreu em agosto de 1905, aos 51 anos, foi um dos precursores no movimento de arte realista na Finlândia e um dos primeiros finlandeses a conquistar fama mundial. A imagem da família que transporta no barco um pequeno caixão foi completamente recriada pelo pintor ao ar livre, assim que a cena passou diante dele. Como afirmou um dos críticos de seu trabalho, Edefert era “talentoso na arte de retratar os sentimentos”. Eu soube disso no exato instante em que coloquei os meus olhos sobre aquela pintura.

Van Gogh

De manhã, antes de sair para o trabalho, faço um café e resolvo tomá-lo de pé, embora não esteja com pressa. Com a caneca quente entre as mãos, descanso o meu olhar sobre o pôster amarelo pendurado na parede que dá às boas-vindas a quem entra no apartamento. O pôster que eu comprei na loja do museu The National Gallery, em Londres, e que pedi à comissária de bordo da British Airways para me ajudar a acomodar no compartimento de bagagem de uma maneira que ninguém pudesse amassá-lo. Foram semanas carregando-o cuidadosamente enrolado num plástico nos diversos deslocamentos da viagem e não seria ali, a caminho de casa, que eu o deixaria sofrer algum dano. Uma reprodução de “Sunflowers”, uma das minhas telas preferidas e uma das mais importantes do pintor holandês Vincent van Gogh. Ele a pintou para decorar a “Yellow House”, como era conhecida a sua casa em Arles, no sul da França, que sonhava transformar numa colônia de artistas. Bastante animado com a visita do amigo Paul Gauguin, ele reservou essa, dentre uma série de outras seis telas de girassóis, para enfeitar o quarto que receberia o hóspede ilustre. Van Gogh associava a cor amarela à esperança e à amizade e queria que seus girassóis expressassem uma ideia de gratidão. Vindo dele, nada seria mais apropriado para uma acolhedora e afetuosa recepção. Enquanto eu contemplo o meu quadro, meio que hipnotizada, eu lembro das coisas que a comediante australiana Hannah Gadsby falou sobre ele no stand-up “Nanette”, que eu assisti na Netflix. O remédio que tomava para a epilepsia que ingerido em excesso podia alterar a percepção da cor amarela, que passava a ser mais intensa. Os retratos de seus psiquiatras. E os antidepressivos, que ocasionalmente eram tomados por conta própria. E então eu começo a me questionar: será que em algum momento Vincent van Gogh evitou os medicamentos com medo de que eles interferissem na sua capacidade de se expressar artisticamente? Será que ele estabelecia uma relação entre a doença e a sua natureza sensível e introspectiva? Como eu gostaria de conversar com ele… É tão reconfortante descobrir no outro um elemento seu. A identificação desperta a empatia e nos traz a sensação de pertencimento. Durante anos eu acreditei que meu sofrimento era fruto de uma sensibilidade excessiva, uma espécie de inaptidão para a existência. E a ideia de que tomar antidepressivo é o caminho que as pessoas fracas percorrem para fugir da realidade é tão difundida, que eu demorei a confrontá-la. O entendimento da depressão como doença veio depois de muita angústia. Mas hoje eu sou capaz de reconhecer que um dos aspectos mais bonitos e enriquecedores na jornada de conhecimento e aceitação de um problema, é que ele chega, muitas vezes, pela generosidade de pessoas que viveram ou vivem uma mesma situação e que resolvem compartilhar suas histórias a fim de ajudar o outro a atravessá-la. O meu pai, quando recebeu o diagnóstico de uma doença renal crônica, só passou a lidar bem com as sessões de hemodiálise depois que começou a conviver com pessoas que também faziam o tratamento, e que enfrentavam as mesmas restrições e complicações médicas que ele. E quando descobriu que o amor e os cuidados à sua volta se sobrepunham à dor e à sua nova condição. O amor, e só o amor, é o que faz tudo valer a pena. Como disse a Hannah Gadsby: “Sabem por que temos os girassóis? Não é porque Vincent van Gogh sofreu. É porque Vincent van Gogh tinha um irmão que o amava. Durante toda a sua dor, ele tinha alguém que o ligava ao mundo. E esse é o foco da história que precisamos. Conexão.”