

Depois de caminhar longamente pelo Stourhead Garden, sob a manhã fria, chuvosa e cinzenta, chego a charmosa St. Peter’s Church. A igreja medieval erguida no século treze, e restaurada nos anos de 1722 e 1848, convida a entrar àqueles que passam por Stourhead e que desejam observar sua construção e os imponentes túmulos e esculturas que homenageiam as pessoas que fizeram a história do lugar. Contudo, assim que entro sou subitamente atraída pela simplicidade de uma arvorezinha posicionada num canto discreto, distraindo-me completamente das riquezas artísticas e históricas que me trouxeram aqui. Caminho até a árvore e então começo a ler, uma a uma, as preces escritas em pequenos cartões que foram amarrados aos seus frágeis troncos. Comovida com o teor das mensagens, esqueço-me do tempo. E então, enquanto fotografo algumas delas para que a poesia do momento não escape de mim, descubro que é hora de encerrar a visita. É quando escuto, ao longe, o que uma das minhas professoras do segundo ano fundamental disse à minha mãe, em tom de censura, durante uma reunião de pais e mestres. “A Juliana é uma criança muito dispersa. Se um lápis cai no chão, ela deixa de prestar atenção à aula para observá-lo”. Uma repreensão que só deixou de me causar tristeza e insegurança quando eu aprendi a me conhecer e a me aceitar, e a pensar que a minha desatenção talvez seja um estado atento em mim. Antes de sair, resolvo deixar uma prece, mas não encontro nenhum cartãozinho. Então escrevo em pensamento: “que todos eles recebam o que precisam”. Saio aquecida de volta ao clima frio do dia, ainda pensando na fé e esperança que transbordam daqueles que amam. Preces para a recuperação de Charles. Para que a mãe e o cachorro melhorem. Para aqueles que estão sofrendo de perda auditiva. Para Jéssica, que está lutando contra o câncer. Para que uma família se mantenha segura e feliz. Preces para pessoas amadas que se foram para sempre… Em vez de me transportarem para um período longínquo, a antiga construção em blocos de pedras e as sepulturas daqueles que há muito deixaram de existir me encorajam a viver no presente. É como se um lápis caísse no chão apenas para chamar minha atenção às coisas que verdadeiramente me inspiram e me tocam. “Ame os seus. Cuide dos seus. Reze pelos seus, até que um dia você também já não possa fazê-lo”, é o que digo para mim mesma. Hoje eu imagino que se reencontrasse a minha antiga professora, eu não diria com rancor que talvez suas aulas fossem pouco atrativas para captar minha atenção. Na verdade, eu não diria nada. Está tudo bem.
