Hannah Gadsby

“Rir não é o melhor remédio. O que cura são as histórias”. O stand-up barra monólogo “Nanette” é uma das coisas mais emocionantes e transformadoras que eu tive a honra de assistir. Nanette é o triunfo de uma mulher destruída que reuniu forças e conseguiu renascer. E que decidiu compartilhar suas histórias a fim de ocupar o espaço de sua existência e ajudar, inspirar e dar voz a tantas outras almas dilaceradas. Corajosamente, a comediante, ou melhor, a ex-comediante Hannah Gadsby conduz a narrativa de modo a envolver os ouvintes nas suas experiências e, uma vez envolvidos, fazer com que fiquem desconfortáveis com suas revelações. E o show, que começa leve e divertido, torna-se então repentinamente tenso. Uma tensão propositada que visa, por meio da sintonia estabelecida, questionar como cada um reage diante de episódios de violência, intolerância e injustiça dos quais não são vítimas, mas telespectadores. É desse modo que descobrimos que pior do que aquele que exclui é aquele que ignora a realidade da exclusão, como se ela não fosse um problema coletivo. Estamos conectados. “A minha história é a sua história”. Quando um indivíduo opta pelo não envolvimento, pela inação, ele escreve não só a própria história, mas também a daquela pessoa que teria o curso de sua vida alterado se recebesse a ajuda de que precisava. Por outro lado, quando uma pessoa é amparada, é como se a raça humana desse um passo adiante. E tentativas de constranger, ameaçar, calar e subjugar passam a ser confrontadas. Grupos minoritários, que talvez nem sejam tão minoritários como somos levados a acreditar, deixam os bastidores e passam a ocupar seus espaços. E suas palavras agitam mais e mais pessoas a fazerem o mesmo. “É da luz que a escuridão tem medo”. Para mim, é um alento e um sopro de fé na humanidade contemplar a Hannah sobre o palco. De posse do discurso, ela escreve não só a própria história, mas também a de todos aqueles que ao ouvi-la ganham força e coragem para existir.

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