Os girassóis

“Há alguns anos, um homem veio até mim depois do meu show. Eu tinha falado sobre tomar antidepressivos e ele queria dar sua opinião. Interessante, eu também falei que conselhos não solicitados não ajudam em casos de saúde mental, mas acho que ele não ouviu essa parte. E disse: ‘Você não deveria tomar remédio porque é uma artista. Sentir é importante para você. Se Vincent van Gogh tomasse remédio, não teríamos os girassóis’. Nunca pensei que meu diploma de História da Arte teria utilidade. Mas, meu Deus. A surra que eu dei no cara foi maior que meu financiamento estudantil. Falei: Boa opinião, parceiro. Exceto por ele ter tomado remédio. Bastante. Tomava por conta própria. Bebia muito. Ele até comia as tintas. Problema mental. E sabe o que mais? Ele não pintou só girassóis, mas fez vários retratos de psiquiatras. Não de psiquiatras aleatórios, mas dos que cuidavam dele. E o medicavam. E tem o retrato de um psiquiatra em particular em que ele segura uma flor, e não é um girassol. É uma dedaleira. E essa dedaleira faz parte de um medicamento que Van Gogh tomava para a epilepsia. E essa droga de remédio derivado da dedaleira… sabe o que acontece se esse derivado da dedaleira é ingerido em excesso? Você percebe a cor amarela mais intensa que o normal. Então, talvez, tenhamos os girassóis justamente porque Van Gogh tomava remédio. O que você acha, honestamente?, eu disse. Que para ser criativo você tem que sofrer? Que esse é o fardo da criatividade? Só pra você aproveitar? Vá se fuder, cara. Se gosta tanto de girassóis, compre um buquê e se masturbe num gerânio. E ele: ‘Não precisa ser tão sensível’. Não seja tão sensível. Esse é o conselho que eu mais recebo. Porque eu sou muito sensível. Mas eu não entendo. Por que deveríamos buscar a insensibilidade? Eu sei que minha sensibilidade é minha força. Sei disso. Minha sensibilidade me ajudou a atravessar um caminho muito difícil na vida. Quando alguém me diz para deixar de ser tão sensível, quer saber? Eu me sinto como um nariz levando bronca de um peido. Não é esse o problema.” 

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