Das histórias que comovem

Aquela imagem passaria batida por mim se eu já não soubesse o que ela representa. Ainda que eu não fosse distraída dificilmente eu perceberia aquela viatura da polícia parada mais uma vez em frente ao portão. Seria só mais uma cena em meio à tantas outras. Mas eu sabia inclusive que ela se dirige àquele endereço em dias específicos da semana. Sempre às segundas, quartas e sextas-feiras. Eu a reconheci imediatamente porque o meu pai, que faz hemodiálise nessa mesma clínica, havia me contado a razão. Ele raramente fala sobre os pacientes que dividem o turno da manhã com ele, mas eu acho que esse o comoveu, como a mim também. O meu pai descobriu, não sem algum sofrimento, que embora sua existência esteja condicionada à máquina que faz a função de seus rins, ele tem a sorte de sair da clínica e voltar para o seu lar e para os braços de sua família, que sempre lhe dá forças para seguir da melhor maneira possível. Mas aquele senhor, que eu não conheço pessoalmente e que segundo meu pai deve ter uns sessenta e cinco anos, tem sua vida condicionada à uma máquina e ao cumprimento de uma pena. Eu não sei qual foi o seu crime e nem me cabe saber. Só o que eu sei é que aquela viatura tem o compromisso de ir e vir do presídio onde aquele detento vive e de onde sai apenas para suas sessões. Então, sempre que eu vejo aquele carro ali parado eu sinto uma tristeza enorme.

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