
“Tripulação, pouso autorizado”. Como é bom ouvir essa frase. Como é gostoso sentir o avião tocar o solo e chegar em segurança ao destino. Eu ainda lembro da minha primeira viagem a bordo de uma aeronave. Toda aquela expectativa pela ida ao aeroporto, a espera pelo embarque, o afivelar do cinto, os momentos da decolagem e da aterrissagem e o temor de que fosse o meu primeiro e último voo. Como se mentalizar uma catástrofe fosse uma estratégia muito inteligente para afugentar a apreensão. Contudo, eu aprendi a pensar que o medo só existe quando a gente se coloca em situações que nos desafiam e que nós deliberadamente escolhemos enfrentar. Paralisar diante dele já seria a morte em vida e para mim não há morte pior. Então, quando eu penso nas vítimas de desastres aéreos eu me entristeço e ao mesmo tempo me orgulho dessa coragem e fé que as colocou em movimento. Durante uma viagem em família, com destino ao aeroporto de Porto Seguro, eu tentei mas não consegui deixar de lembrar na tragédia provocada pelo copiloto da companhia aérea Germanwings, que matou 149 inocentes, incluindo crianças. Um cara depressivo psicótico que em março de 2015 aproveitou a ida do piloto ao banheiro para se trancar na cabine do avião e arremessa-lo contra os Alpes franceses. Eu pensei com desolação que suas vítimas passariam a eternidade a caminho de seus destinos e compartilhariam para sempre os gritos de desespero diante da certeza do fim. Em outros tempos, talvez esses pensamentos me provocassem medo de voar, como aquele que eu senti na minha primeira viagem. Mas hoje não. E não foram as minhas horas voadas que mudaram minha percepção. Eu descobri que quanto mais notícias trágicas eu recebo, mais determinada a aproveitar cada momento da vida eu me sinto. A certeza da morte é a mão amiga que nos ajuda a viver. “Somos instantes”. Cada instante vale a pena. Cada instante a gente tem que fazer valer a pena. Porquê um dia, leve o tempo que levar, o nosso pouso não será autorizado, e os nossos pés não voltarão a tocar o solo.
