Joanes e a Ilha de Marajó

Às nove horas da manhã o calor já era intenso. Apesar disso, o short jeans foi substituído por calça comprida por recomendação do dono da fazenda São Jerônimo. Um banho de protetor solar e outro de repelente criaram a armadura perfeita para os males da trilha. Com a câmera fotográfica na mão, devidamente preparada para o registro desse encontro inusitado, fui apresentada ao Joanes. Aparentemente manso, com ares de quem já está completamente condicionado à rotina, ele foi selado e levado à uma pequena escada de madeira para que eu pudesse monta-lo. Enquanto os demais visitantes montavam seus búfalos, o meu aproveitava para comer o mato rasteiro. O passeio pela trilha, marcada por terra batida e cercada de árvores que formavam um romântico túnel de luzes e sombras, seguia um compasso tranquilo. Dos quarenta minutos de percurso faltavam apenas dez para chegarmos à segunda etapa do passeio, que seria percorrida a pé e depois de barco. Mas “a vida muda num instante”. E nesse instante em que tudo se transforma eu estava no chão, gemendo de dor, e sem entender direito porquê o animal que me conduzia com serenidade havia saído em disparada derrubando-me com grande impacto e violência. Aquele era o meu momento presente. Eu precisava lidar com a dor; com as vozes assustadas dos turistas que queriam desmontar apressadamente; com a minha irmã me dizendo que eu ficaria bem; com as pessoas amontoadas à minha volta oferecendo sua solidariedade; com as sequelas do acidente e com o fato de estar longe de casa e de um hospital decente. No chão, olhando para o céu por entre as folhas das árvores que balançavam com o vento, eu era só resignação. Depois de duas passagens frustradas por hospitais públicos em Soure e em Belém, eu recebi, na quarta-feira de cinzas, em São Paulo, o resultado da tomografia solicitada pelo médico: “fratura de três costelas e de uma vértebra lombar”. Cacete! Passeios anteriores a cavalo, camelo e elefante tiraram de mim o medo que protege contra as consequências de se confiar demais. A recuperação seria demorada, delicada e dolorosa. Realmente, num segundo tudo muda. Os passos desaceleram. A rotina some. Os projetos ficam suspensos. As prioridades trocam de lugar. A humildade e a gratidão passam a caminhar juntas. A paciência se agiganta. E é impossível não pensar que talvez a verdadeira transformação aconteça quando a última dificuldade for enfim superada.

E hoje, passados quase três anos desde o dia que eu sofri o acidente, eu só penso em voltar a esse destino pra continuar a minha viagem interrompida. Porque nas belezas naturais. Nas paisagens pitorescas. No povo hospitaleiro. Na culinária típica. No clima quente. Na simplicidade. A cidade de Soure, na Ilha de Marajó, é só poesia. E eu sempre me lembrarei do búfalo Joanes como o cara que me ensinou a respeitar a natureza e o espaço de cada um.

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