No sabor do meu expresso 2

Quando o aroma do café da manhã começava a exalar na minha casa da infância, eu sabia que um novo dia estava prestes a começar. Aquele era o seu primeiro aceno. Um convite afetuoso para sair da cama. Às vezes, eu chegava na cozinha e os meus pais já estavam à mesa, servindo suas xícaras. Em outras ocasiões, eu podia vê-los à pia e ao fogão, ainda envolvidos na sua preparação e na mágica que acontece quando a água quente passa pelo pó marrom no filtro de papel. E acho que foi assim que eu me apaixonei pelo café. Primeiro, ainda criança, de uma maneira platônica, atraída pelo seu perfume, mas desautorizada a bebê-lo. E então, com uma idade que eu não sei precisar, servindo a minha própria xícara e sentindo-me importante por finalmente fazer parte do mundo dos adultos. Um universo que aos poucos me mostrou que nunca se tratou apenas da bebida, mas dos momentos que ela traz consigo. O ritual que envolve seu preparo e seu aroma e sabor traduzidos na rotina acolhedora de nós cinco sentados à mesa todas as manhãs. Meus pais, meus irmãos e eu vívidos e unidos como nos comerciais de margarina. Afeto também compartilhado no café da tarde com bolinho de chuva polvilhado com açúcar e canela na casa da vó Rosa. Ou acompanhado de pão caseiro quentinho com manteiga Aviação na casa da avó Adelaide. Durante a faculdade era ele o parceiro perfeito para as horas solitárias de estudos ou para a troca de ideias com os amigos. E o melhor argumento para encontrar alguém: “Vamos tomar um café”? No trabalho, o cafezinho após o almoço era uma tradição que seguíamos religiosamente. E na companhia dos colegas fazíamos desse momento uma festa. A pausa perfeita para voltarmos ao escritório revigorados. Foi nesse período, inclusive, que eu desenvolvi um profundo amor pelo ambiente das cafeterias. Embora habitualmente agitadas e barulhentas – a música da máquina de expresso em constante funcionamento, da vaporização do leite, do tilintar de xícaras e pires de porcelana chocando-se uns contra os outros e do falatório dos clientes, eu descobri que esse é um dos lugares onde eu mais encontro calma e silêncio. E concentração para ler ou anotar meus pensamentos. “Ju, sabia que eu aprendi a gostar de café com você?”, revelou meu irmão, certa vez, para minha surpresa e felicidade. Pelas ruas do meu bairro, da minha cidade ou nos muitos caminhos que eu percorro durante as viagens, é sempre uma alegria encontrar uma cafeteria aconchegante para transformar em poesia um momento do dia. Gertrude Stein, escritora e poetisa americana, escreveu: “Café é muito mais do que apenas uma bebida; é um acontecimento… como um evento, um lugar para estar, mas não como uma localização, mas algum lugar dentro de si mesmo. Ele te dá tempo, mas não exatamente horas e minutos, mas a chance para ser, para ser você mesma, e então tomar uma segunda xícara”. Agora, sentada à uma das mesas de uma das cafeterias mais antigas de Paris, o Café de Flore, no bairro Saint-Germain-des-Prés, uma das minhas preferidas no mundo, embora essa seja apenas a minha segunda vez aqui, eu observo as pessoas e penso em como essas pausas para o café enriqueceram e continuam a enriquecer os meus dias. E do nada, imagino como seria encontrar aqui a escritora Patti Smith, uma das minhas favoritas. Ela sempre vem ao Café de Flore quando está em Paris e, normalmente, registra essas visitas no Instagram: “Este é um café da manhã no Café de Flore. Ainda acordando depois de uma noite de sonhos estranhos e abstratos. Mas aqui tudo é familiar. Concreto. O café, um copinho de água, um pedaço de pão e meu caderno e caneta. O que vem a seguir depende de mim”, postou certa vez. E então eu percebo que se de fato ela estivesse sentada num dos sofás vermelhos do salão, ou à uma das mesinhas redondas da área externa, eu não teria coragem de aborda-la com o pedido de uma foto ou para lhe dizer o quanto seus livros são casas para mim. Eu não ousaria interromper o seu fluxo criativo ou a pausa consigo mesma, pois eu sei que isso quebraria o encanto do momento. Eu simplesmente a observaria de longe, o rosto sério e os olhos sobre o caderno no qual ela registra seus pensamentos e ideias, banhando-se no mesmo elixir que banhou escritores, artistas e filósofos, como Albert Camus, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, nesse mesmo espaço, muitas décadas antes dela. Eu li, certa vez, que muitos deles buscavam trabalhar no ambiente das cafeterias para fugir de seus apartamentos espartanos e pouco aquecidos. Ali, eles podiam mergulhar na introspecção ou socializar em debates e discussões. E contar com a generosidade dos proprietários, que os deixavam ocupar suas mesas apesar do pouco consumo, como se soubessem que esse gesto viria a trazer frutos no futuro, como uma espécie de investimento a longo prazo. Inclusive, é possível perceber que nesse momento grande parte dos clientes é formada por turistas. Alguns, eu sei, buscam absorver uma atmosfera intelectual como se os frequentadores ilustres do passado tivessem deixado seus conhecimentos numa névoa sobrenatural. Outros, querem apenas riscar de sua lista um lugar que transformou-se em ponto turístico dada à sua fama histórica e cultural. E eu, inspirada principalmente pelos inúmeros registros da Patti Smith no Café de Flore, alegro-me em tomar o meu café enquanto contemplo o lugar e tento me transportar para uma época longínqua. Os clientes mudaram. Os temas das conversas são outros. É possível que a decoração tenha sofrido alguns ajustes. E acredito que até o sabor do café já não seja mais o mesmo, mas o prazer de estar aqui une as gerações. E é esse clima que me leva a querer conhecer cafeterias históricas mundo afora. Eu sei que um dia todos esses momentos deixarão de existir, como a rotina de nós cinco sentados à mesa todas as manhãs, mas hoje… Hoje eu seguro fortemente a xícara quente por entre as minhas mãos e deixo-me seduzir pelo seu perfume, sabor e poesia.

Tudo passa

O relógio despertou às 6 horas, conforme programamos na noite anterior, e ainda com sono e presas às camas quentinhas, minha irmã e eu rimos da nossa ideia de como curtir nossas férias no Chile. Não havia tempo a perder. A van passaria em uma hora para nos pegar e vestir-se como uma cebola levaria tempo. Também precisávamos de um leve desayuno. Rapidamente nos colocamos de pé e começamos a vestir nossas camadas. Blusa e calça segunda pele, seguidas por blusa e calça fleece. Meias térmicas e botas de trekking. O casacão pesado foi deixado para o fim. Àquela altura, dentro do quarto do hotel, eu já estava morrendo de calor. Na mochila, um litro de água em uma garrafa já pesada (que horas depois eu sentiria vontade de deixar pelo caminho), protetor labial, protetor solar, óculos de sol, cachecol, gorro, luvas, boné e uma embalagem grande de lenços umedecidos (mais peso morto). Nós havíamos visitado o lado argentino da Patagônia e sabíamos que seu clima era bastante imprevisível. Maluco mesmo. Mas era mesmo necessário vestir, para depois ter de carregar, o pesado e desajeitado casaco corta-vento? Bom, mas era isso ou passar frio, e passar frio não era uma opção. Quando a nossa van finalmente chegou ao Centro de Bienvenida na Reserva Cerro Paine, dentro do Parque Nacional Torres Del Paine, depois de uma viagem de quase duas horas a partir do nosso hotel em Puerto Natales, eu pensei: “Bora, que eu tô pronta”. Bem, na verdade, eu sabia que não estava totalmente pronta. Faltava ainda fazer um xixizinho e também receber os bastões de caminhada pelas mãos da Ana, a nossa guia. Aliás, eu não sei dizer o que foi mais imprescindível nessa trilha, a nossa guia ou os bastões que ela nos entregou e que nos impulsionavam nas subidas e nos ajudavam a descer cautelosamente. E foram tantas subidas e descidas que eu tenho certeza que a experiência teria sido bem mais traumática se eles não me acompanhassem. Depois que o nosso pequeno grupo, formado por cinco pessoas, incluindo minha irmã e eu, recebeu as instruções sobre o percurso e teve seus bastões ajustados para a altura de cada um, nós pudemos seguir nosso rumo. Aquele era o primeiro dia das férias, que nós havíamos dividido entre a Patagônia e o Deserto do Atacama. E o hiking até a base das Torres era um dos pontos altos da viagem, justamente porquê nós sabíamos que não seria fácil. E também porquê Torres del Paine era uma antiga conhecida que nós desejávamos rever. Anos atrás nós havíamos visto, à distância, toda sua imponência depois de um tour bate e volta a partir de El Calafate. A viagem corrida de um dia, embora tenha sido extremamente cansativa, nos deixou com vontade de voltar para contemplar mais de perto, e demoradamente, aquela formação rochosa espetacular, que destaca-se do Maciço Paine, e cuja formação data de aproximadamente doze milhões de anos. O passeio começou de forma tranquila. Uma estradinha bem marcada sob terreno plano dava segurança e ritmo aos meus passos. Mas essa ainda não era a trilha, eu descobriria depois. Era só a trilha que nos levaria até a trilha oficial. Quando o percurso realmente começou, ele mostrou rapidamente que não estava ali para amadores. Uma subida bastante íngreme e interminável marcava a primeira etapa da jornada. Em pouco tempo, o calor provocado pelo esforço me obrigou a tirar o casacão corta-vento e amarra-lo na mochila que eu levava nas costas. Nas mãos, iam os bastões. Logo de cara, eles se tornaram um prolongamento dos meus braços. Como se fôssemos um só corpo. Quando vencemos a subida e o terreno tornou-se plano novamente, eu senti o ar puro nos pulmões e pude, então, observar melhor a paisagem ao meu redor. Eu estava ofegante e cansada, mas grata por estar ali, em meio à natureza, novamente. O sol apareceu cedinho e tornou mais vívidas as cores contrastantes da vegetação, do gelo sobre as montanhas e dos riachos formados pelas águas de degelo, que nos faziam companhia em alguns trechos. Delicados, com seus tons de azul e verde esmeralda, eles destoavam do ambiente intimidador. Infelizmente, não tínhamos muito tempo para fotografias, ainda que passássemos por muitos pontos fotogênicos. As pernas precisavam se manter em movimento. Para segurança de todos, existe um horário limite para que os visitantes cheguem à base e não seríamos nós a ver a passagem bloqueada pelo guarda-parque. Muitos outros turistas faziam a trilha e mantinham um ritmo constante, o que conferia uma atmosfera acolhedora à paisagem inóspita. E era uma felicidade caminhar ao lado deles. Nós vínhamos de todos os lugares do mundo e tínhamos histórias diferentes, mas estávamos conectados por um propósito em comum. Um interesse em comum. Aqueles que caminhavam em sentido oposto ao nosso traziam um semblante radiante e nos deixavam mensagens de estímulo. Eles diziam, num misto de alegria e orgulho: “é mesmo lindo” e “valerá a pena”. Eu via todos aqueles rostos amigáveis e me perguntava se eles tinham perdido alguém para a Covid-19. E, ao mesmo tempo, surpreendia-me com o meu próprio questionamento. Por que esse pensamento no primeiro dia das férias? Por que era tudo muito recente? Ou talvez devido ao trauma. Foram quase quinze milhões de pessoas mortas no mundo todo, segundo a Organização Mundial da Saúde. Como superar isso? Não são só números. Talvez o fato de já ter perdido pessoas amadas me aproxime da dor de quem perde o pai, um irmão, a mãe, uma tia, um amigo. Eu estive nesse lugar. Eu sei como é, mas, no fundo, eu acredito que toda pessoa que ama é capaz de se solidarizar com o sofrimento de quem vive o luto. E, certamente, algumas dessas pessoas na trilha perderam alguém para a covid. É difícil encontrar quem não tenha perdido. A vida que ninguém vê, de repente, escancarada e noticiada. Eu passava por eles e os imaginava presos em suas casas, perguntando-se quando seriam livres novamente. Não só livres de corpo e espírito, mas, principalmente, de pensamento. Como aqueles dias de pandemia foram difíceis. Quando tempo faz? Quando tudo isso começou? Dezembro de 2019? Então, faz pouco mais de dois anos. Quanta tristeza e quanta ansiedade nós sentimos. E quando a gente ia imaginar que viveria uma pandemia, nos dias atuais? Pandemia era algo do passado e também dos filmes e livros. Os sorrisos cobertos por máscaras. O silêncio e o vazio nas escolas. Nos escritórios. Nos bares. Restaurantes. Livrarias. Parques. Ruas. Todos os lugares de convívio, vazios. Silêncio e vazio destruindo e transformando pessoas e empregos. Quantos perderam seus trabalhos. Quanta gente precisou se reinventar. E o Governo pedindo para que ficássemos em casa, que era a melhor maneira de evitar a contaminação do vírus, cuja forma de transmissão era ainda desconhecida. E então, apesar da ansiedade e do medo de ficar doente ou de transmitir o vírus, era preciso agradecer. Agradecer pelo teto, pelo abrigo seguro, e também pelo trabalho, que nos permitia a realização de tarefas à distância. Agradecer pela possibilidade de proteger a si mesmo e aqueles que não podiam ficar em casa, como os funcionários de farmácias e supermercados, considerados serviços essenciais. E também, ou principalmente, os profissionais da saúde. Médicas e médicos, enfermeiras e enfermeiros levados à exaustão na linha de frente da batalha contra a doença. Vidas perdidas e vidas salvas. E pensar que muitos deles tiveram de escolher, em algum momento, qual paciente teria direito a um respirador, já que os hospitais estavam lotados e não havia respiradores para todos. Quando esse pensamento passou pela minha cabeça, eu respirei fundo. Pensar nessa doença que afeta a capacidade de respirar, enquanto o trajeto exige tanto dos pulmões, emociona. E o que diriam as árvores, os riachos e as montanhas sobre o período em que as fronteiras estiveram fechadas e o povo local e os turistas foram proibidos de circular? Será que a natureza via esse distanciamento humano como forma de curar a si mesma dos males por eles provocados ou ela mesma sentia falta de gente e de sua maneira invasiva de reverencia-la? As imagens veiculadas pela imprensa durante o período de confinamento, que esvaziou os lugares, mostrava como as águas dos canais de Veneza tornaram-se cristalinas, já que não haviam embarcações para levantar sedimentos. Pássaros e outros animais passaram a ser vistos em locais não frequentados antes. E o céu ficou mais limpo, especialmente à noite, com a diminuição da poluição gerada pelo trânsito. E eu, o quanto eu desejei ter plantas dentro de casa. Como o verde me fez falta. Como era bom estar de novo perto da natureza. Depois de quase duas horas de caminhada, chegamos ao Refúgio Chileno. A parada sob a sombra fora um relâmpago. Tempo suficiente apenas para ir ao banheiro, beber água e comer um snack, rapidamente. Era preciso renovar as forças antes de retomar os passos e dar início à segunda etapa da trilha. O percurso agora era por dentro da floresta, onde o solo se tornara bastante irregular e repleto de aclives e declives. Nessa fase, era preciso prestar atenção à trilha a fim de evitar um acidente. Uma oportunidade para deixar de lado as divagações e esvaziar a mente. E os meus pensamentos passaram mesmo a habitar o momento presente e a me atormentar com a ideia de que eu não daria conta. As minhas pernas doíam e eu tinha medo de não conseguir. A guia percebeu meus sinais de cansaço e passou a me incentivar: ”Julyyyyyyy, vamos July. Nós podemos andar devagar, mas não podemos parar”. No entanto, ela não diminuía o ritmo. A floresta parecia não ter fim e eu observei que precisava mais das pernas do que dos pulmões. Quando chegamos, finalmente, à etapa final da trilha, eu não sabia se chorava ou ria (de nervoso). Havia uma subida muito íngrime e, de novo, interminável. As pessoas lá no alto pareciam miniaturas. Elas estavam longe, muito longe. E eu teria que  subir por entre aquelas pedras e também encolher aos olhos dos que vinham abaixo. Nesse momento, eu juro que pensei em desistir. Que se fudesse o que eu já havia caminhado. Aquilo era insano. Ao mesmo tempo, eu havia chegado até ali. Desistir agora, tão perto de atingir o objetivo? Era frustrante. Eu parecia livre, mas estava aprisionada às limitações do meu corpo. Mas e se fosse uma limitação da minha cabeça? A minha mente dizendo que eu não era capaz? Eu, que já havia superado tantas coisas difíceis na vida, iria carregar essa frustração? Enquanto eu lutava comigo mesma, sob a ameaça de uma crise de pânico, a nossa guia aproximou-se de mim e perguntou: “Ju, você quer chegar? Se você me responder que ‘não’, então você pode nos esperar aqui, pois nós faremos esse mesmo trajeto na volta. Mas se você responder ‘sim’, que quer chegar, então eu vou ajudá-la e você vai chegar”. Eu confiei nela e respondi que sim, eu queria chegar. Ela então pegou minha mochila e colocou nas próprias costas. Pegou meu casaco desajeitado e enfiou na sua mochila. Ela me deixou leve e passou a caminhar ao meu lado. “Julyyyyy, vamos July”, dizia, de tempos em tempos. Eu cheguei. Eu cheguei aos pés das Torres e mal pude acreditar na imagem à minha frente. Um lago verde esmeralda e, ao fundo, os três dedos de Deus. Agora sim, eu podia não apenas sentar sobre uma das pedras e descansar, mas de fato contemplar aquela beleza extraordinária e única no mundo, reconhecida pela Unesco como Reserva da Biosfera, em 1978. O sol que tinha iluminado nosso caminho havia ido embora. O dia ficou repentinamente nublado e uma garoa fininha começou a cair, contudo, nada seria capaz de atrapalhar aquele momento. Quem conhece a imprevisibilidade da vida, aceita com o peito aberto a imprevisibilidade do clima. É como se não existisse tempo bom ou ruim, mas apenas o tempo. E talvez, no fim, seja tudo parte da mesma natureza. Eu saí da trilha completamente destruída. Enfraquecida. Foram vinte quilômetros percorridos. Quase nove horas de caminhada, entre ida e volta. As minhas botas pareciam de concreto e levantar os pés para dar um simples passo parecia um castigo. Eu fiquei para trás do grupo e entoava um mantra para seguir adiante: “a cada passo dado, mais eu me aproximo do hotel”. Eu não via a hora de chegar, arrancar aquelas botas, aquela roupa e ficar completamente imóvel. Eu não estava preparada para o desafio. Eu subestimei o percurso. Eu estava tão exausta que cheguei até a questionar meu amor pela natureza, como se fosse ela a culpada pelo meu estado lastimável. Mas então eu pensei no coronavírus e em todos os seus desdobramentos ruins. E pensei nas cientistas e nos cientistas que desenvolveram a vacina em tempo recorde, o que aos poucos estava nos devolvendo à normalidade. Pensei na rede de solidariedade formada para ajudar as pessoas afetadas pela pandemia. E pensei com carinho na nossa guia Ana, que me ajudou a chegar aonde eu queria estar. Eu visualizei os rostos amigáveis dos turistas que dividiam a trilha e deixavam mensagens de encorajamento. Nós havíamos voltado a sorrir e a mostrar esses sorrisos, agora que as máscaras já não eram necessárias. E então eu lembrei, tudo passa.

O meu sol

Eu nunca sonhei com uma casa na praia ou no campo. Eu pensava apenas em morar num pequeno apartamento próximo ao trabalho. Prático e aconchegante, que me poupasse tempo e energia com as idas e vindas diárias e exaustivas no metrô e no trem. Um lugar onde eu pudesse receber a família e os amigos e decorar com os souvenirs das minhas viagens. Quando eu disse ao meu irmão que a única coisa da qual eu não abriria mão numa futura moradia seria da entrada da luz do Sol, ele sorriu e saiu da mesa discretamente. Então, voltou com uma folha de papel na mão e a estendeu pra mim: “Ju, isso não será problema. O Sol você já tem. É só pendurá-lo na parede”. Hoje, quando eu contemplo o desenho que ele fez pra me fazer sorrir eu sinto toda sua luz sobre mim. Os raios solares entram pela varanda do meu apartamento e projetam-sé no chão, nas paredes, nos móveis e sobre o meu rosto, mas são as lembranças que eu tenho do meu irmão que verdadeiramente me iluminam e também me aquecem.

Somos instantes

“Tripulação, pouso autorizado”. Como é bom ouvir essa frase. Como é gostoso sentir o avião tocar o solo e chegar em segurança ao destino. Eu ainda lembro da minha primeira viagem a bordo de uma aeronave. Toda aquela expectativa pela ida ao aeroporto, a espera pelo embarque, o afivelar do cinto, os momentos da decolagem e da aterrissagem e o temor de que fosse o meu primeiro e último voo. Como se mentalizar uma catástrofe fosse uma estratégia muito inteligente para afugentar a apreensão. Contudo, eu aprendi a pensar que o medo só existe quando a gente se coloca em situações que nos desafiam e que nós deliberadamente escolhemos enfrentar. Paralisar diante dele já seria a morte em vida e para mim não há morte pior. Então, quando eu penso nas vítimas de desastres aéreos eu me entristeço e ao mesmo tempo me orgulho dessa coragem e fé que as colocou em movimento. Durante uma viagem em família, com destino ao aeroporto de Porto Seguro, eu tentei mas não consegui deixar de lembrar na tragédia provocada pelo copiloto da companhia aérea Germanwings, que matou 149 inocentes, incluindo crianças. Um cara depressivo psicótico que em março de 2015 aproveitou a ida do piloto ao banheiro para se trancar na cabine do avião e arremessa-lo contra os Alpes franceses. Eu pensei com desolação que suas vítimas passariam a eternidade a caminho de seus destinos e compartilhariam para sempre os gritos de desespero diante da certeza do fim. Em outros tempos, talvez esses pensamentos me provocassem medo de voar, como aquele que eu senti na minha primeira viagem. Mas hoje não. E não foram as minhas horas voadas que mudaram minha percepção. Eu descobri que quanto mais notícias trágicas eu recebo, mais determinada a aproveitar cada momento da vida eu me sinto. A certeza da morte é a mão amiga que nos ajuda a viver. “Somos instantes”. Cada instante vale a pena. Cada instante a gente tem que fazer valer a pena. Porquê um dia, leve o tempo que levar, o nosso pouso não será autorizado, e os nossos pés não voltarão a tocar o solo.

Joanes e a Ilha de Marajó

Às nove horas da manhã o calor já era intenso. Apesar disso, o short jeans foi substituído por calça comprida por recomendação do dono da fazenda São Jerônimo. Um banho de protetor solar e outro de repelente criaram a armadura perfeita para os males da trilha. Com a câmera fotográfica na mão, devidamente preparada para o registro desse encontro inusitado, fui apresentada ao Joanes. Aparentemente manso, com ares de quem já está completamente condicionado à rotina, ele foi selado e levado à uma pequena escada de madeira para que eu pudesse monta-lo. Enquanto os demais visitantes montavam seus búfalos, o meu aproveitava para comer o mato rasteiro. O passeio pela trilha, marcada por terra batida e cercada de árvores que formavam um romântico túnel de luzes e sombras, seguia um compasso tranquilo. Dos quarenta minutos de percurso faltavam apenas dez para chegarmos à segunda etapa do passeio, que seria percorrida a pé e depois de barco. Mas “a vida muda num instante”. E nesse instante em que tudo se transforma eu estava no chão, gemendo de dor, e sem entender direito porquê o animal que me conduzia com serenidade havia saído em disparada derrubando-me com grande impacto e violência. Aquele era o meu momento presente. Eu precisava lidar com a dor; com as vozes assustadas dos turistas que queriam desmontar apressadamente; com a minha irmã me dizendo que eu ficaria bem; com as pessoas amontoadas à minha volta oferecendo sua solidariedade; com as sequelas do acidente e com o fato de estar longe de casa e de um hospital decente. No chão, olhando para o céu por entre as folhas das árvores que balançavam com o vento, eu era só resignação. Depois de duas passagens frustradas por hospitais públicos em Soure e em Belém, eu recebi, na quarta-feira de cinzas, em São Paulo, o resultado da tomografia solicitada pelo médico: “fratura de três costelas e de uma vértebra lombar”. Cacete! Passeios anteriores a cavalo, camelo e elefante tiraram de mim o medo que protege contra as consequências de se confiar demais. A recuperação seria demorada, delicada e dolorosa. Realmente, num segundo tudo muda. Os passos desaceleram. A rotina some. Os projetos ficam suspensos. As prioridades trocam de lugar. A humildade e a gratidão passam a caminhar juntas. A paciência se agiganta. E é impossível não pensar que talvez a verdadeira transformação aconteça quando a última dificuldade for enfim superada.

E hoje, passados quase três anos desde o dia que eu sofri o acidente, eu só penso em voltar a esse destino pra continuar a minha viagem interrompida. Porque nas belezas naturais. Nas paisagens pitorescas. No povo hospitaleiro. Na culinária típica. No clima quente. Na simplicidade. A cidade de Soure, na Ilha de Marajó, é só poesia. E eu sempre me lembrarei do búfalo Joanes como o cara que me ensinou a respeitar a natureza e o espaço de cada um.

Portuguesa com certeza

A casinha fofa e pitoresca da foto, construída com madeira e colmo, uma espécie de caule como o do bambu e da cana-de-açúcar, que se adapta às variações climáticas da região, e em forma de triângulo para facilitar o escoamento das águas pluviais, é uma das quatro que integram um dos mais emblemáticos cartões-postais da Ilha da Madeira, em Portugal. Localizadas na freguesia de Santana, no Núcleo de Casas Típicas, acredita-se que sejam vestígios de construções primitivas. Revitalizadas, transformaram-se em lojinhas de produtos regionais e souvenirs para os turistas. Eu não sei se meus bisavós maternos chegaram a conhecê-las quando eram ainda habitadas, mas a minha avó seguramente não. Ela deixou a Ilha onde nasceu com apenas dois meses de idade, trazida pelos pais que esperavam encontrar no Brasil melhores condições de trabalho e sobrevivência. A minha viagem a Portugal, em especial à Ilha da Madeira, foi também uma maneira de prestar homenagem aos meus ancestrais, e, principalmente, à minha avó Adelaide, já que não pode ela mesma fazer esse resgate às origens da família. Bastante religiosa, ela ficaria feliz com a nossa visita à Igreja Matriz de Santa Quitéria, erguida em 1835 na freguesia de Boaventura, na qual seus pais se casaram e anos depois a batizaram. Ficaria encantada com os nossos relatos sobre as belezas naturais da Ilha, como o Curral das Freiras – a pequena aldeia formada num vale muito profundo e incrustada entre altas e majestosas montanhas, cuja vista a partir do Miradouro da Eira do Serrado é de tirar o fôlego. Inicialmente, preocuparia-se quando contássemos que percorremos estradas muito sinuosas, sobre abismos. E então se acalmaria ao nos ouvir dizer que nosso motorista era um sujeito local e cauteloso e que, confiantes, pudemos aproveitar o trajeto para contemplar os lindos tons de azul do Oceano Atlântico. Acharia graça do nosso passeio a bordo de um cesto de vime, que foi criado originalmente para transportar os habitantes do Monte ao Funchal, no ano de 1850. Empurrado ladeiras abaixo por dois homens uniformizados e com botas especiais que também atuam como freio nas diversas travessias de ruas e avenidas, os carros de cesto do Monte são hoje uma atração turística das mais divertidas e inusitadas. Uma Ilha da Madeira completamente diferente daquela que os fez partir carregando alguns poucos pertences, mas com o peito cheio de fé e coragem. Coragem pelo inexplorado à frente e pelas pessoas deixadas para trás, sem nenhuma garantia de voltar a vê-las. Assim, quando eu penso na minha cidadania portuguesa, sinto-me invadida por um enorme sentimento de orgulho desses meus familiares que atravessaram o Atlântico em busca de uma vida melhor. E embora eu considere mais interessante viajar a um novo destino do que à um já visitado, eu gostaria muito de voltar a Lisboa, ao Porto e à Ilha da Madeira, que é absolutamente linda. Eu então aproveitaria para explorar pontos diferentes do país, como o Algarve e a aldeia de Azinhaga, na província do Ribatejo, onde nasceu o escritor José Saramago. Ele não é da família, mas eu sinto como se fosse. Portugal foi uma das minhas mais lindas e memoráveis viagens. É um lugar que estará para sempre no meu coração, assim como meus bisavós, que me inspiram a desafiar o desconhecido e alcançar novas terras.

O que importa não são coisas

Em alguns meses ele será o meu novo lar. Agora, o apartamento sequer se parece com uma casa. Chão, cheiro e cor de cimento. É a tal casa engraçada. Sem penico. Sem pipi. Os vasos sanitários estão no que um dia será o meu quarto de vestir. Marcel Duchamp. Dadaísmo. Desculpe-me o transtorno, estou em obras. As paredes expõem suas vísceras. Adriana Varejão. Inhotim. Contemporâneo. Sem cores. Sem história. Sem vida. Está vazio. E cheio de possibilidades. Promessas de refúgio. Lugar que acolhe e recarrega. Renova. Atrai amigos. Atrai ondas boas. A página em branco à espera da inspiração. Do escritor, do pintor, do artista, do morador. Portas de correr nos quartos para otimizar espaços. Portas de correr nos armários para ganhar espaço. Fotos e reprodução de pinturas em paredes e prateleiras. Souvenirs das viagens aqui e ali. Um coração luminoso cafona que eu acho lindo. A porta ícone daquele seriado que eu ainda gosto. Se o meu irmão estivesse aqui, ele me ajudaria com a decoração. Ele me ajudaria com tudo. Ele estaria orgulhoso de mim. Ele está. Eu consigo senti-lo. O amor rompe as barreiras determinadas pelo tempo. Com amor eu receberei minha família e meus amigos. Para as sobrinhas, sorvete e chocolate. Para os amigos, vinho e  cerveja. Livros, canecas e miniaturas de café, souvenirs e bonecos. Apego. Antes que a mudança aconteça eu preciso destralhar. Roupas, calçados e quinquilharias. Desapego. Doação. Fazer a energia expandir. Minimalismo. Menos é mais. Menos coisas para mais tempo. Mais tempo para o que importa. O que importa não são coisas. O que importa já tem morada bonita. Em mim.

Naquela esquina

Ela não percebeu que eu a observava, mas sua presença despertou meu interesse assim que eu a descobri sentada sozinha naquele banco. Quando o táxi parou no sinal vermelho entre as avenidas Roberto Marinho e Engenheiro Luís Carlos Berrini, eu olhei para a minha direita e notei que aquela garotinha olhava fixamente para o alto de uma árvore cujos galhos balançavam fortemente com o vento. Talvez um pássaro ou o farfalhar das folhas tivesse captado sua atenção. De qualquer modo, eu fiquei pensando numa possível razão para que ela estivesse sozinha em frente àquele Conjunto Habitacional e naquele estado contemplativo. Era uma cena melancólica e ela me parecia tão jovem, talvez tivesse uns cinco anos. De camiseta rosa, calças jeans e um tênis branco, ela podia estar à espera de alguém. Talvez da mãe que terminaria de se arrumar e então desceria para que elas fizessem um passeio juntas. Talvez tivesse combinado de encontrar uma amiguinha. Ou talvez tivesse fugido de uma discussão entre seus pais e buscado refúgio na solidão. Quando esse último pensamento passou pela minha cabeça eu me senti triste e quis logo expulsá-lo. O semáforo abriu, mas eu senti tanta vontade de permanecer ali. Na verdade, eu queria sair do carro, caminhar em sua direção e me sentar ao seu lado. Mas só o que eu pude fazer foi desejar a ela uma vida plena e feliz.

No sabor do meu expresso

Elas almoçaram e agora ocupam quase todas as mesas da pequena cafeteria. Consigo me sentar à uma delas, num cantinho reservado. Estou com sorte. Quando eu posso escolher sempre dou preferência a esses lugares. A atendente anota o meu pedido de um café e um brigadeiro e volta ao balcão. Enquanto espero, tiro um livro da bolsa e retomo a leitura de onde parei. Mas o barulho do ambiente rompe a minha concentração e eu resolvo prestar atenção aos sons à minha volta. Sentadas aos pares ou em grupos, as pessoas conversam com grande entusiasmo. O coro formado por dezenas de vozes só é abafado pelo funcionamento da máquina de café e pelo tilintar das xícaras e pires sendo lavados. O meu expresso chega, e no instante em que abro o envelope do adoçante me dou conta de como sou feliz em momentos como esse. Acompanhada de amigos, sozinha com os próprios pensamentos, com um livro ou uma revista nas mãos, ou viajando enquanto observo, ou penso observar, as pessoas que passam diante de mim, eu sinto paz. Então eu lembro do que o meu irmão me disse certa vez: “Ju, sabia que eu aprendi a gostar de café com você?”. Os meus olhos se enchem d’água e os meus lábios sorriem. No dia que eu ouvi isso eu fui a mais orgulhosa e feliz das irmãs. Eu, que tanto aprendi ao seu lado e que fui transformada pelas suas palavras, amizade e amor, havia deixado nele algo meu. E era esse gosto pelas pequenas pausas que um cafezinho promove, sempre tão prazerosas e gratificantes. Fecho meu livro e o coloco de volta na bolsa. Agora tudo o que eu quero é reviver essa lembrança e reencontrá-lo no sabor do meu expresso.