O que importa não são coisas

Em alguns meses ele será o meu novo lar. Agora, o apartamento sequer se parece com uma casa. Chão, cheiro e cor de cimento. É a tal casa engraçada. Sem penico. Sem pipi. Os vasos sanitários estão no que um dia será o meu quarto de vestir. Marcel Duchamp. Dadaísmo. Desculpe-me o transtorno, estou em obras. As paredes expõem suas vísceras. Adriana Varejão. Inhotim. Contemporâneo. Sem cores. Sem história. Sem vida. Está vazio. E cheio de possibilidades. Promessas de refúgio. Lugar que acolhe e recarrega. Renova. Atrai amigos. Atrai ondas boas. A página em branco à espera da inspiração. Do escritor, do pintor, do artista, do morador. Portas de correr nos quartos para otimizar espaços. Portas de correr nos armários para ganhar espaço. Fotos e reprodução de pinturas em paredes e prateleiras. Souvenirs das viagens aqui e ali. Um coração luminoso cafona que eu acho lindo. A porta ícone daquele seriado que eu ainda gosto. Se o meu irmão estivesse aqui, ele me ajudaria com a decoração. Ele me ajudaria com tudo. Ele estaria orgulhoso de mim. Ele está. Eu consigo senti-lo. O amor rompe as barreiras determinadas pelo tempo. Com amor eu receberei minha família e meus amigos. Para as sobrinhas, sorvete e chocolate. Para os amigos, vinho e  cerveja. Livros, canecas e miniaturas de café, souvenirs e bonecos. Apego. Antes que a mudança aconteça eu preciso destralhar. Roupas, calçados e quinquilharias. Desapego. Doação. Fazer a energia expandir. Minimalismo. Menos é mais. Menos coisas para mais tempo. Mais tempo para o que importa. O que importa não são coisas. O que importa já tem morada bonita. Em mim.

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