


O relógio despertou às 6 horas, conforme programamos na noite anterior, e ainda com sono e presas às camas quentinhas, minha irmã e eu rimos da nossa ideia de como curtir nossas férias no Chile. Não havia tempo a perder. A van passaria em uma hora para nos pegar e vestir-se como uma cebola levaria tempo. Também precisávamos de um leve desayuno. Rapidamente nos colocamos de pé e começamos a vestir nossas camadas. Blusa e calça segunda pele, seguidas por blusa e calça fleece. Meias térmicas e botas de trekking. O casacão pesado foi deixado para o fim. Àquela altura, dentro do quarto do hotel, eu já estava morrendo de calor. Na mochila, um litro de água em uma garrafa já pesada (que horas depois eu sentiria vontade de deixar pelo caminho), protetor labial, protetor solar, óculos de sol, cachecol, gorro, luvas, boné e uma embalagem grande de lenços umedecidos (mais peso morto). Nós havíamos visitado o lado argentino da Patagônia e sabíamos que seu clima era bastante imprevisível. Maluco mesmo. Mas era mesmo necessário vestir, para depois ter de carregar, o pesado e desajeitado casaco corta-vento? Bom, mas era isso ou passar frio, e passar frio não era uma opção. Quando a nossa van finalmente chegou ao Centro de Bienvenida na Reserva Cerro Paine, dentro do Parque Nacional Torres Del Paine, depois de uma viagem de quase duas horas a partir do nosso hotel em Puerto Natales, eu pensei: “Bora, que eu tô pronta”. Bem, na verdade, eu sabia que não estava totalmente pronta. Faltava ainda fazer um xixizinho e também receber os bastões de caminhada pelas mãos da Ana, a nossa guia. Aliás, eu não sei dizer o que foi mais imprescindível nessa trilha, a nossa guia ou os bastões que ela nos entregou e que nos impulsionavam nas subidas e nos ajudavam a descer cautelosamente. E foram tantas subidas e descidas que eu tenho certeza que a experiência teria sido bem mais traumática se eles não me acompanhassem. Depois que o nosso pequeno grupo, formado por cinco pessoas, incluindo minha irmã e eu, recebeu as instruções sobre o percurso e teve seus bastões ajustados para a altura de cada um, nós pudemos seguir nosso rumo. Aquele era o primeiro dia das férias, que nós havíamos dividido entre a Patagônia e o Deserto do Atacama. E o hiking até a base das Torres era um dos pontos altos da viagem, justamente porquê nós sabíamos que não seria fácil. E também porquê Torres del Paine era uma antiga conhecida que nós desejávamos rever. Anos atrás nós havíamos visto, à distância, toda sua imponência depois de um tour bate e volta a partir de El Calafate. A viagem corrida de um dia, embora tenha sido extremamente cansativa, nos deixou com vontade de voltar para contemplar mais de perto, e demoradamente, aquela formação rochosa espetacular, que destaca-se do Maciço Paine, e cuja formação data de aproximadamente doze milhões de anos. O passeio começou de forma tranquila. Uma estradinha bem marcada sob terreno plano dava segurança e ritmo aos meus passos. Mas essa ainda não era a trilha, eu descobriria depois. Era só a trilha que nos levaria até a trilha oficial. Quando o percurso realmente começou, ele mostrou rapidamente que não estava ali para amadores. Uma subida bastante íngreme e interminável marcava a primeira etapa da jornada. Em pouco tempo, o calor provocado pelo esforço me obrigou a tirar o casacão corta-vento e amarra-lo na mochila que eu levava nas costas. Nas mãos, iam os bastões. Logo de cara, eles se tornaram um prolongamento dos meus braços. Como se fôssemos um só corpo. Quando vencemos a subida e o terreno tornou-se plano novamente, eu senti o ar puro nos pulmões e pude, então, observar melhor a paisagem ao meu redor. Eu estava ofegante e cansada, mas grata por estar ali, em meio à natureza, novamente. O sol apareceu cedinho e tornou mais vívidas as cores contrastantes da vegetação, do gelo sobre as montanhas e dos riachos formados pelas águas de degelo, que nos faziam companhia em alguns trechos. Delicados, com seus tons de azul e verde esmeralda, eles destoavam do ambiente intimidador. Infelizmente, não tínhamos muito tempo para fotografias, ainda que passássemos por muitos pontos fotogênicos. As pernas precisavam se manter em movimento. Para segurança de todos, existe um horário limite para que os visitantes cheguem à base e não seríamos nós a ver a passagem bloqueada pelo guarda-parque. Muitos outros turistas faziam a trilha e mantinham um ritmo constante, o que conferia uma atmosfera acolhedora à paisagem inóspita. E era uma felicidade caminhar ao lado deles. Nós vínhamos de todos os lugares do mundo e tínhamos histórias diferentes, mas estávamos conectados por um propósito em comum. Um interesse em comum. Aqueles que caminhavam em sentido oposto ao nosso traziam um semblante radiante e nos deixavam mensagens de estímulo. Eles diziam, num misto de alegria e orgulho: “é mesmo lindo” e “valerá a pena”. Eu via todos aqueles rostos amigáveis e me perguntava se eles tinham perdido alguém para a Covid-19. E, ao mesmo tempo, surpreendia-me com o meu próprio questionamento. Por que esse pensamento no primeiro dia das férias? Por que era tudo muito recente? Ou talvez devido ao trauma. Foram quase quinze milhões de pessoas mortas no mundo todo, segundo a Organização Mundial da Saúde. Como superar isso? Não são só números. Talvez o fato de já ter perdido pessoas amadas me aproxime da dor de quem perde o pai, um irmão, a mãe, uma tia, um amigo. Eu estive nesse lugar. Eu sei como é, mas, no fundo, eu acredito que toda pessoa que ama é capaz de se solidarizar com o sofrimento de quem vive o luto. E, certamente, algumas dessas pessoas na trilha perderam alguém para a covid. É difícil encontrar quem não tenha perdido. A vida que ninguém vê, de repente, escancarada e noticiada. Eu passava por eles e os imaginava presos em suas casas, perguntando-se quando seriam livres novamente. Não só livres de corpo e espírito, mas, principalmente, de pensamento. Como aqueles dias de pandemia foram difíceis. Quando tempo faz? Quando tudo isso começou? Dezembro de 2019? Então, faz pouco mais de dois anos. Quanta tristeza e quanta ansiedade nós sentimos. E quando a gente ia imaginar que viveria uma pandemia, nos dias atuais? Pandemia era algo do passado e também dos filmes e livros. Os sorrisos cobertos por máscaras. O silêncio e o vazio nas escolas. Nos escritórios. Nos bares. Restaurantes. Livrarias. Parques. Ruas. Todos os lugares de convívio, vazios. Silêncio e vazio destruindo e transformando pessoas e empregos. Quantos perderam seus trabalhos. Quanta gente precisou se reinventar. E o Governo pedindo para que ficássemos em casa, que era a melhor maneira de evitar a contaminação do vírus, cuja forma de transmissão era ainda desconhecida. E então, apesar da ansiedade e do medo de ficar doente ou de transmitir o vírus, era preciso agradecer. Agradecer pelo teto, pelo abrigo seguro, e também pelo trabalho, que nos permitia a realização de tarefas à distância. Agradecer pela possibilidade de proteger a si mesmo e aqueles que não podiam ficar em casa, como os funcionários de farmácias e supermercados, considerados serviços essenciais. E também, ou principalmente, os profissionais da saúde. Médicas e médicos, enfermeiras e enfermeiros levados à exaustão na linha de frente da batalha contra a doença. Vidas perdidas e vidas salvas. E pensar que muitos deles tiveram de escolher, em algum momento, qual paciente teria direito a um respirador, já que os hospitais estavam lotados e não havia respiradores para todos. Quando esse pensamento passou pela minha cabeça, eu respirei fundo. Pensar nessa doença que afeta a capacidade de respirar, enquanto o trajeto exige tanto dos pulmões, emociona. E o que diriam as árvores, os riachos e as montanhas sobre o período em que as fronteiras estiveram fechadas e o povo local e os turistas foram proibidos de circular? Será que a natureza via esse distanciamento humano como forma de curar a si mesma dos males por eles provocados ou ela mesma sentia falta de gente e de sua maneira invasiva de reverencia-la? As imagens veiculadas pela imprensa durante o período de confinamento, que esvaziou os lugares, mostrava como as águas dos canais de Veneza tornaram-se cristalinas, já que não haviam embarcações para levantar sedimentos. Pássaros e outros animais passaram a ser vistos em locais não frequentados antes. E o céu ficou mais limpo, especialmente à noite, com a diminuição da poluição gerada pelo trânsito. E eu, o quanto eu desejei ter plantas dentro de casa. Como o verde me fez falta. Como era bom estar de novo perto da natureza. Depois de quase duas horas de caminhada, chegamos ao Refúgio Chileno. A parada sob a sombra fora um relâmpago. Tempo suficiente apenas para ir ao banheiro, beber água e comer um snack, rapidamente. Era preciso renovar as forças antes de retomar os passos e dar início à segunda etapa da trilha. O percurso agora era por dentro da floresta, onde o solo se tornara bastante irregular e repleto de aclives e declives. Nessa fase, era preciso prestar atenção à trilha a fim de evitar um acidente. Uma oportunidade para deixar de lado as divagações e esvaziar a mente. E os meus pensamentos passaram mesmo a habitar o momento presente e a me atormentar com a ideia de que eu não daria conta. As minhas pernas doíam e eu tinha medo de não conseguir. A guia percebeu meus sinais de cansaço e passou a me incentivar: ”Julyyyyyyy, vamos July. Nós podemos andar devagar, mas não podemos parar”. No entanto, ela não diminuía o ritmo. A floresta parecia não ter fim e eu observei que precisava mais das pernas do que dos pulmões. Quando chegamos, finalmente, à etapa final da trilha, eu não sabia se chorava ou ria (de nervoso). Havia uma subida muito íngrime e, de novo, interminável. As pessoas lá no alto pareciam miniaturas. Elas estavam longe, muito longe. E eu teria que subir por entre aquelas pedras e também encolher aos olhos dos que vinham abaixo. Nesse momento, eu juro que pensei em desistir. Que se fudesse o que eu já havia caminhado. Aquilo era insano. Ao mesmo tempo, eu havia chegado até ali. Desistir agora, tão perto de atingir o objetivo? Era frustrante. Eu parecia livre, mas estava aprisionada às limitações do meu corpo. Mas e se fosse uma limitação da minha cabeça? A minha mente dizendo que eu não era capaz? Eu, que já havia superado tantas coisas difíceis na vida, iria carregar essa frustração? Enquanto eu lutava comigo mesma, sob a ameaça de uma crise de pânico, a nossa guia aproximou-se de mim e perguntou: “Ju, você quer chegar? Se você me responder que ‘não’, então você pode nos esperar aqui, pois nós faremos esse mesmo trajeto na volta. Mas se você responder ‘sim’, que quer chegar, então eu vou ajudá-la e você vai chegar”. Eu confiei nela e respondi que sim, eu queria chegar. Ela então pegou minha mochila e colocou nas próprias costas. Pegou meu casaco desajeitado e enfiou na sua mochila. Ela me deixou leve e passou a caminhar ao meu lado. “Julyyyyy, vamos July”, dizia, de tempos em tempos. Eu cheguei. Eu cheguei aos pés das Torres e mal pude acreditar na imagem à minha frente. Um lago verde esmeralda e, ao fundo, os três dedos de Deus. Agora sim, eu podia não apenas sentar sobre uma das pedras e descansar, mas de fato contemplar aquela beleza extraordinária e única no mundo, reconhecida pela Unesco como Reserva da Biosfera, em 1978. O sol que tinha iluminado nosso caminho havia ido embora. O dia ficou repentinamente nublado e uma garoa fininha começou a cair, contudo, nada seria capaz de atrapalhar aquele momento. Quem conhece a imprevisibilidade da vida, aceita com o peito aberto a imprevisibilidade do clima. É como se não existisse tempo bom ou ruim, mas apenas o tempo. E talvez, no fim, seja tudo parte da mesma natureza. Eu saí da trilha completamente destruída. Enfraquecida. Foram vinte quilômetros percorridos. Quase nove horas de caminhada, entre ida e volta. As minhas botas pareciam de concreto e levantar os pés para dar um simples passo parecia um castigo. Eu fiquei para trás do grupo e entoava um mantra para seguir adiante: “a cada passo dado, mais eu me aproximo do hotel”. Eu não via a hora de chegar, arrancar aquelas botas, aquela roupa e ficar completamente imóvel. Eu não estava preparada para o desafio. Eu subestimei o percurso. Eu estava tão exausta que cheguei até a questionar meu amor pela natureza, como se fosse ela a culpada pelo meu estado lastimável. Mas então eu pensei no coronavírus e em todos os seus desdobramentos ruins. E pensei nas cientistas e nos cientistas que desenvolveram a vacina em tempo recorde, o que aos poucos estava nos devolvendo à normalidade. Pensei na rede de solidariedade formada para ajudar as pessoas afetadas pela pandemia. E pensei com carinho na nossa guia Ana, que me ajudou a chegar aonde eu queria estar. Eu visualizei os rostos amigáveis dos turistas que dividiam a trilha e deixavam mensagens de encorajamento. Nós havíamos voltado a sorrir e a mostrar esses sorrisos, agora que as máscaras já não eram necessárias. E então eu lembrei, tudo passa.
