No sabor do meu expresso 2

Quando o aroma do café da manhã começava a exalar na minha casa da infância, eu sabia que um novo dia estava prestes a começar. Aquele era o seu primeiro aceno. Um convite afetuoso para sair da cama. Às vezes, eu chegava na cozinha e os meus pais já estavam à mesa, servindo suas xícaras. Em outras ocasiões, eu podia vê-los à pia e ao fogão, ainda envolvidos na sua preparação e na mágica que acontece quando a água quente passa pelo pó marrom no filtro de papel. E acho que foi assim que eu me apaixonei pelo café. Primeiro, ainda criança, de uma maneira platônica, atraída pelo seu perfume, mas desautorizada a bebê-lo. E então, com uma idade que eu não sei precisar, servindo a minha própria xícara e sentindo-me importante por finalmente fazer parte do mundo dos adultos. Um universo que aos poucos me mostrou que nunca se tratou apenas da bebida, mas dos momentos que ela traz consigo. O ritual que envolve seu preparo e seu aroma e sabor traduzidos na rotina acolhedora de nós cinco sentados à mesa todas as manhãs. Meus pais, meus irmãos e eu vívidos e unidos como nos comerciais de margarina. Afeto também compartilhado no café da tarde com bolinho de chuva polvilhado com açúcar e canela na casa da vó Rosa. Ou acompanhado de pão caseiro quentinho com manteiga Aviação na casa da avó Adelaide. Durante a faculdade era ele o parceiro perfeito para as horas solitárias de estudos ou para a troca de ideias com os amigos. E o melhor argumento para encontrar alguém: “Vamos tomar um café”? No trabalho, o cafezinho após o almoço era uma tradição que seguíamos religiosamente. E na companhia dos colegas fazíamos desse momento uma festa. A pausa perfeita para voltarmos ao escritório revigorados. Foi nesse período, inclusive, que eu desenvolvi um profundo amor pelo ambiente das cafeterias. Embora habitualmente agitadas e barulhentas – a música da máquina de expresso em constante funcionamento, da vaporização do leite, do tilintar de xícaras e pires de porcelana chocando-se uns contra os outros e do falatório dos clientes, eu descobri que esse é um dos lugares onde eu mais encontro calma e silêncio. E concentração para ler ou anotar meus pensamentos. “Ju, sabia que eu aprendi a gostar de café com você?”, revelou meu irmão, certa vez, para minha surpresa e felicidade. Pelas ruas do meu bairro, da minha cidade ou nos muitos caminhos que eu percorro durante as viagens, é sempre uma alegria encontrar uma cafeteria aconchegante para transformar em poesia um momento do dia. Gertrude Stein, escritora e poetisa americana, escreveu: “Café é muito mais do que apenas uma bebida; é um acontecimento… como um evento, um lugar para estar, mas não como uma localização, mas algum lugar dentro de si mesmo. Ele te dá tempo, mas não exatamente horas e minutos, mas a chance para ser, para ser você mesma, e então tomar uma segunda xícara”. Agora, sentada à uma das mesas de uma das cafeterias mais antigas de Paris, o Café de Flore, no bairro Saint-Germain-des-Prés, uma das minhas preferidas no mundo, embora essa seja apenas a minha segunda vez aqui, eu observo as pessoas e penso em como essas pausas para o café enriqueceram e continuam a enriquecer os meus dias. E do nada, imagino como seria encontrar aqui a escritora Patti Smith, uma das minhas favoritas. Ela sempre vem ao Café de Flore quando está em Paris e, normalmente, registra essas visitas no Instagram: “Este é um café da manhã no Café de Flore. Ainda acordando depois de uma noite de sonhos estranhos e abstratos. Mas aqui tudo é familiar. Concreto. O café, um copinho de água, um pedaço de pão e meu caderno e caneta. O que vem a seguir depende de mim”, postou certa vez. E então eu percebo que se de fato ela estivesse sentada num dos sofás vermelhos do salão, ou à uma das mesinhas redondas da área externa, eu não teria coragem de aborda-la com o pedido de uma foto ou para lhe dizer o quanto seus livros são casas para mim. Eu não ousaria interromper o seu fluxo criativo ou a pausa consigo mesma, pois eu sei que isso quebraria o encanto do momento. Eu simplesmente a observaria de longe, o rosto sério e os olhos sobre o caderno no qual ela registra seus pensamentos e ideias, banhando-se no mesmo elixir que banhou escritores, artistas e filósofos, como Albert Camus, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, nesse mesmo espaço, muitas décadas antes dela. Eu li, certa vez, que muitos deles buscavam trabalhar no ambiente das cafeterias para fugir de seus apartamentos espartanos e pouco aquecidos. Ali, eles podiam mergulhar na introspecção ou socializar em debates e discussões. E contar com a generosidade dos proprietários, que os deixavam ocupar suas mesas apesar do pouco consumo, como se soubessem que esse gesto viria a trazer frutos no futuro, como uma espécie de investimento a longo prazo. Inclusive, é possível perceber que nesse momento grande parte dos clientes é formada por turistas. Alguns, eu sei, buscam absorver uma atmosfera intelectual como se os frequentadores ilustres do passado tivessem deixado seus conhecimentos numa névoa sobrenatural. Outros, querem apenas riscar de sua lista um lugar que transformou-se em ponto turístico dada à sua fama histórica e cultural. E eu, inspirada principalmente pelos inúmeros registros da Patti Smith no Café de Flore, alegro-me em tomar o meu café enquanto contemplo o lugar e tento me transportar para uma época longínqua. Os clientes mudaram. Os temas das conversas são outros. É possível que a decoração tenha sofrido alguns ajustes. E acredito que até o sabor do café já não seja mais o mesmo, mas o prazer de estar aqui une as gerações. E é esse clima que me leva a querer conhecer cafeterias históricas mundo afora. Eu sei que um dia todos esses momentos deixarão de existir, como a rotina de nós cinco sentados à mesa todas as manhãs, mas hoje… Hoje eu seguro fortemente a xícara quente por entre as minhas mãos e deixo-me seduzir pelo seu perfume, sabor e poesia.

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