Portuguesa com certeza

A casinha fofa e pitoresca da foto, construída com madeira e colmo, uma espécie de caule como o do bambu e da cana-de-açúcar, que se adapta às variações climáticas da região, e em forma de triângulo para facilitar o escoamento das águas pluviais, é uma das quatro que integram um dos mais emblemáticos cartões-postais da Ilha da Madeira, em Portugal. Localizadas na freguesia de Santana, no Núcleo de Casas Típicas, acredita-se que sejam vestígios de construções primitivas. Revitalizadas, transformaram-se em lojinhas de produtos regionais e souvenirs para os turistas. Eu não sei se meus bisavós maternos chegaram a conhecê-las quando eram ainda habitadas, mas a minha avó seguramente não. Ela deixou a Ilha onde nasceu com apenas dois meses de idade, trazida pelos pais que esperavam encontrar no Brasil melhores condições de trabalho e sobrevivência. A minha viagem a Portugal, em especial à Ilha da Madeira, foi também uma maneira de prestar homenagem aos meus ancestrais, e, principalmente, à minha avó Adelaide, já que não pode ela mesma fazer esse resgate às origens da família. Bastante religiosa, ela ficaria feliz com a nossa visita à Igreja Matriz de Santa Quitéria, erguida em 1835 na freguesia de Boaventura, na qual seus pais se casaram e anos depois a batizaram. Ficaria encantada com os nossos relatos sobre as belezas naturais da Ilha, como o Curral das Freiras – a pequena aldeia formada num vale muito profundo e incrustada entre altas e majestosas montanhas, cuja vista a partir do Miradouro da Eira do Serrado é de tirar o fôlego. Inicialmente, preocuparia-se quando contássemos que percorremos estradas muito sinuosas, sobre abismos. E então se acalmaria ao nos ouvir dizer que nosso motorista era um sujeito local e cauteloso e que, confiantes, pudemos aproveitar o trajeto para contemplar os lindos tons de azul do Oceano Atlântico. Acharia graça do nosso passeio a bordo de um cesto de vime, que foi criado originalmente para transportar os habitantes do Monte ao Funchal, no ano de 1850. Empurrado ladeiras abaixo por dois homens uniformizados e com botas especiais que também atuam como freio nas diversas travessias de ruas e avenidas, os carros de cesto do Monte são hoje uma atração turística das mais divertidas e inusitadas. Uma Ilha da Madeira completamente diferente daquela que os fez partir carregando alguns poucos pertences, mas com o peito cheio de fé e coragem. Coragem pelo inexplorado à frente e pelas pessoas deixadas para trás, sem nenhuma garantia de voltar a vê-las. Assim, quando eu penso na minha cidadania portuguesa, sinto-me invadida por um enorme sentimento de orgulho desses meus familiares que atravessaram o Atlântico em busca de uma vida melhor. E embora eu considere mais interessante viajar a um novo destino do que à um já visitado, eu gostaria muito de voltar a Lisboa, ao Porto e à Ilha da Madeira, que é absolutamente linda. Eu então aproveitaria para explorar pontos diferentes do país, como o Algarve e a aldeia de Azinhaga, na província do Ribatejo, onde nasceu o escritor José Saramago. Ele não é da família, mas eu sinto como se fosse. Portugal foi uma das minhas mais lindas e memoráveis viagens. É um lugar que estará para sempre no meu coração, assim como meus bisavós, que me inspiram a desafiar o desconhecido e alcançar novas terras.

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre No sabor do meu expresso, por Juliana Albrecht

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading