No sabor do meu expresso

Elas almoçaram e agora ocupam quase todas as mesas da pequena cafeteria. Consigo me sentar à uma delas, num cantinho reservado. Estou com sorte. Quando eu posso escolher sempre dou preferência a esses lugares. A atendente anota o meu pedido de um café e um brigadeiro e volta ao balcão. Enquanto espero, tiro um livro da bolsa e retomo a leitura de onde parei. Mas o barulho do ambiente rompe a minha concentração e eu resolvo prestar atenção aos sons à minha volta. Sentadas aos pares ou em grupos, as pessoas conversam com grande entusiasmo. O coro formado por dezenas de vozes só é abafado pelo funcionamento da máquina de café e pelo tilintar das xícaras e pires sendo lavados. O meu expresso chega, e no instante em que abro o envelope do adoçante me dou conta de como sou feliz em momentos como esse. Acompanhada de amigos, sozinha com os próprios pensamentos, com um livro ou uma revista nas mãos, ou viajando enquanto observo, ou penso observar, as pessoas que passam diante de mim, eu sinto paz. Então eu lembro do que o meu irmão me disse certa vez: “Ju, sabia que eu aprendi a gostar de café com você?”. Os meus olhos se enchem d’água e os meus lábios sorriem. No dia que eu ouvi isso eu fui a mais orgulhosa e feliz das irmãs. Eu, que tanto aprendi ao seu lado e que fui transformada pelas suas palavras, amizade e amor, havia deixado nele algo meu. E era esse gosto pelas pequenas pausas que um cafezinho promove, sempre tão prazerosas e gratificantes. Fecho meu livro e o coloco de volta na bolsa. Agora tudo o que eu quero é reviver essa lembrança e reencontrá-lo no sabor do meu expresso.

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