Livros são portais

Peço um macchiato enquanto flerto com os lindos doces que me sorriem da vitrine. Tortinhas de morango, eclairs de caramelo e chocolate, fatias de bolo e brigadeiros. Como eu gosto de brigadeiro… Mas resisto bravamente ao seu poder de sedução e me contento com o simpático biscoitinho que acompanha meu expresso com leite. Busco uma mesa e acomodo minhas coisas. A Patti chega logo em seguida, puxa uma cadeira e senta ao meu lado. Ela sempre vem ao meu encontro quando eu preciso dela. Embora seja reconhecida como uma das mais importantes e influentes artistas da história do rock, cujo álbum de estreia, Horses, é tido como o precursor do punk, e ainda uma cultuada e aclamada compositora, musicista, poetisa e escritora, Patti Smith se mantém simples e acessível. Eu a conheci em 2011, quando li seu delicado e tocante livro de memórias, “Só Garotos”. Uma história tão envolvente que me senti desamparada quando terminei sua leitura. Aguardei ansiosa o lançamento de seu livro seguinte, “Linha M”, e o comprei assim que ele chegou às livrarias. Essa é a segunda vez que meus olhos percorrem suas linhas. Eu preciso me deixar envolver novamente pela atmosfera melancólica e poética de suas recordações. Reflexões sobre amor e perda. Passado e presente. A morte irremediável de seu marido, Fred Sonic Smith, e as lembranças de um tempo que nunca mais será. Eu quero caminhar ao seu lado pelas ruas, cafeterias e livrarias de Nova York, Berlim e Londres. Assim como Patti, eu tenho necessidade de ser levada para outras paragens. E como ela mesma afirma, “livros são portais que nos ajudam a renascer”. Depois de uma perda irreparável é preciso se reinventar. “Desejamos coisas que não podemos ter. Tentamos conservar certos momentos, sons, emoções. Quero ouvir a voz da minha mãe. Quero ver meus filhos ainda crianças. Mãozinhas pequenas, pés ligeiros. Tudo muda. Garoto crescido, pai morto, filha mais alta que eu, chorando por causa de um sonho ruim. Por favor, fiquem aqui para sempre, digo para as coisas. Não vão embora. Não cresçam”. Fecho o livro e contemplo sua capa. O primeiro e último registro de Patti Smith à mesa cativa que a acolheu por mais de dez anos no agora extinto Café ‘Ino, no Greenwich Village, em Nova York. A imagem da desolação. Caminho de volta ao trabalho e, como se ela pudesse me ouvir, agradeço em pensamento pelas histórias compartilhadas tão generosamente e que hoje me ajudam a renascer. É verdade, “livros são portais” e aqueles que os abrem são seres mágicos, capazes de transformar palavras em pontes. E acolhimento.


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