“Algumas semanas atrás, no campo, longe das luzes da cidade, vi o céu inteiro “polvilhado de estrelas”; eu imaginava que só seria possível ver um céu assim em platôs altos e áridos como o de Atacama, no Chile (onde ficam alguns dos telescópios mais potentes do mundo). Foi esse esplendor celeste que de súbito me fez perceber o pouco tempo, a curta vida que me resta. Minha ideia de beleza celeste, de eternidade, ficou inseparavelmente mesclada a uma ideia de transitoriedade – e de morte. Falei para os meus amigos Kate e Allen: “Gostaria de ver de novo um céu como esse quando estiver morrendo”. “Levaremos você para fora”, eles disseram. Encontro consolo, desde que escrevi em fevereiro sobre meu câncer metastático, nas centenas de cartas que recebo, nas expressões de amor e apreço e no sentimento de que (apesar de tudo) eu talvez tenha tido uma vida boa e útil. Continuo a me sentir muito feliz e grato por tudo isso, mas nada mais me afeta como o céu repleto de estrelas daquela noite.”
A névoa da manhã ainda não se dissipou, mas eu posso vê-lo através dela. Ele caminha em minha direção com passos firmes e decididos e eu acho que o meu coração vai sair pela boca. E que sensação estranha é essa no meu estômago? Que homem lindo. Que visão encantadora ele oferece. Eu poderia passar a eternidade a contemplá-lo. É possível que eu esteja ainda mais apaixonada? A maneira como ele fala. O som da sua voz. E então, quando eu me dou conta, já estou com suas mãos entre as minhas e tudo o que consigo dizer é que elas estão frias. Lentamente, encosto minha testa na dele e deixo que os primeiros raios solares nos iluminem e nos aqueçam enquanto ficamos assim, em silêncio, com os rostos colados e as mãos entrelaçadas como se fôssemos um. Na minha cabeça a sua declaração ainda ecoa e dá aos meus lábios o sorriso mais feliz: “Você enfeitiçou o meu corpo e a minha alma e eu a amo, eu a amo, eu a amo. Não quero mais estar longe de você de hoje em diante”. O filme ”Orgulho e Preconceito” (“Pride and Prejudice”), do diretor Joe Wright, é um dos meus preferidos. Eu até perdi a conta de quantas vezes eu o assisti. A profundidade e as sutilezas que envolvem a história de amor entre Elizabeth Bennet e Fitzwilliam Darcy retratada nos cenários e fotografia que enchem os olhos, no elenco impecável, nos diálogos inteligentemente construídos e na linda trilha sonora do compositor Dario Marianelli sempre me servem de refúgio para as durezas da vida. Suas imagens são tão vívidas na minha cabeça que eu consigo recorrer a ele mesmo em pensamento. Sou capaz inclusive de reproduzir diálogos inteiros. “Orgulho e Preconceito” é uma adaptação do livro homônimo de uma das mais importantes escritoras, a inglesa Jane Austen, uma mulher que esteve à frente de seu tempo. E o filme tem ainda o mais perfeito protagonista. O ator Matthew Macfadyen me deixou completamente apaixonada pelo seu ético, generoso, tímido e romântico Mr. Darcy. O meu amor por esse trabalho de Wright, em especial, é tão autêntico que durante uma viagem de férias à Inglaterra eu incluí no roteiro algumas de suas locações. Casas, jardins e monumentos que inspiram romantismo e delicadeza, como o inesquecível casal de protagonistas.
“O Café ‘Ino está vazio, a não ser pelo cozinheiro mexicano e por um garoto chamado Zak, que atende meu pedido habitual de torrada de pão integral, um pratinho de azeite e café preto. Me instalo no meu canto, ainda de casaco e gorro. São nove da manhã. Sou a primeira a chegar. Bedford Street enquanto a cidade acorda. Minha mesa, ladeada pela máquina de café e pela vitrine, me proporciona uma sensação de privacidade, onde me recolho na minha atmosfera particular… Estico as pernas e fico contemplando Zak cumprir suas tarefas matinais. Ele nem faz ideia que eu já sonhei em ter um café. Acho que essa vontade surgiu com leituras sobre a importância dos cafés na vida dos beats, dos surrealistas e dos poetas simbolistas franceses. Não existiam cafés onde eu cresci, mas havia nos meus livros, e eles floresceram nos meus sonhos. Em 1965 eu vim de South Jersey a Nova York só para perambular por aqui, e nada me parecia mais romântico que sentar e escrever poesia num café do Greenwich Village.” – Patti Smith, no seu lindo e tocante livro de memórias, Linha M.
Peço um macchiato enquanto flerto com os lindos doces que me sorriem da vitrine. Tortinhas de morango, eclairs de caramelo e chocolate, fatias de bolo e brigadeiros. Como eu gosto de brigadeiro… Mas resisto bravamente ao seu poder de sedução e me contento com o simpático biscoitinho que acompanha meu expresso com leite. Busco uma mesa e acomodo minhas coisas. A Patti chega logo em seguida, puxa uma cadeira e senta ao meu lado. Ela sempre vem ao meu encontro quando eu preciso dela. Embora seja reconhecida como uma das mais importantes e influentes artistas da história do rock, cujo álbum de estreia, Horses, é tido como o precursor do punk, e ainda uma cultuada e aclamada compositora, musicista, poetisa e escritora, Patti Smith se mantém simples e acessível. Eu a conheci em 2011, quando li seu delicado e tocante livro de memórias, “Só Garotos”. Uma história tão envolvente que me senti desamparada quando terminei sua leitura. Aguardei ansiosa o lançamento de seu livro seguinte, “Linha M”, e o comprei assim que ele chegou às livrarias. Essa é a segunda vez que meus olhos percorrem suas linhas. Eu preciso me deixar envolver novamente pela atmosfera melancólica e poética de suas recordações. Reflexões sobre amor e perda. Passado e presente. A morte irremediável de seu marido, Fred Sonic Smith, e as lembranças de um tempo que nunca mais será. Eu quero caminhar ao seu lado pelas ruas, cafeterias e livrarias de Nova York, Berlim e Londres. Assim como Patti, eu tenho necessidade de ser levada para outras paragens. E como ela mesma afirma, “livros são portais que nos ajudam a renascer”. Depois de uma perda irreparável é preciso se reinventar. “Desejamos coisas que não podemos ter. Tentamos conservar certos momentos, sons, emoções. Quero ouvir a voz da minha mãe. Quero ver meus filhos ainda crianças. Mãozinhas pequenas, pés ligeiros. Tudo muda. Garoto crescido, pai morto, filha mais alta que eu, chorando por causa de um sonho ruim. Por favor, fiquem aqui para sempre, digo para as coisas. Não vão embora. Não cresçam”. Fecho o livro e contemplo sua capa. O primeiro e último registro de Patti Smith à mesa cativa que a acolheu por mais de dez anos no agora extinto Café ‘Ino, no Greenwich Village, em Nova York. A imagem da desolação. Caminho de volta ao trabalho e, como se ela pudesse me ouvir, agradeço em pensamento pelas histórias compartilhadas tão generosamente e que hoje me ajudam a renascer. É verdade, “livros são portais” e aqueles que os abrem são seres mágicos, capazes de transformar palavras em pontes. E acolhimento.