Cartas para Julieta

Quando se fala de amor nunca é tarde demais. Essa é a mensagem do filme “Cartas para Julieta”, de 2010, um dos meus preferidos. Em casa, ele ocupa a mesma prateleira de “Orgulho e Preconceito” e “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”. Eu já o assisti umas dez vezes e espero ver muitas mais. Nasceu dele e de seus cenários lindos a minha inspiração para visitar a charmosa e romântica cidade de Verona, que se tornou mundialmente conhecida com a obra literária “Romeu e Julieta”, de William Shakespeare. Ela havia ficado de fora do roteiro de uma viagem anterior à Itália, o que descobrimos, tempos depois, que havia sido um engano. Percorrê-la é uma experiência adorável. A cidade é de fato muito envolvente, com suas ruazinhas estreitas, monumentos romanos, floreiras em portas e janelas, cafés e restaurantes aconchegantes e a cênica Ponte Pietra, de onde é possível assistir a um pôr do sol espetacular. Porém, o pátio da Casa di Giulietta, em especial, decepciona quem espera encontrar as mesmas imagens mostradas no filme. Nas paredes, no lugar dos post-its e cartinhas fofas, o que existe são muitos, muitos rabiscos que dão a elas um aspecto sujo, como se tivessem sofrido vandalismo. E o emaranhado de bilhetes colocados uns sobre os outros estão longe de nos despertar qualquer inspiração. Como tivemos oportunidade de visita-lo num final de tarde e na manhã seguinte, ficou evidente que só o vazio e o silêncio são capazes de conferir alguma poesia ao lugar. Na casa-museu, datada do século XIII, e na qual acredita-se ter vivido Giulietta Capuleti, estão expostos móveis, roupas, fotografias e objetos usados em filmes e montagens teatrais. Mas o ponto alto do passeio é mesmo tirar uma foto com a estátua de Julieta, ou melhor, com uma réplica dela. A verdadeira, feita em bronze pelo artista italiano Nereo Constantini, em 1969, fica dentro da casa, devidamente protegida de mãos bobas. É que reza a lenda local que quem tocar em seu seio direito terá sorte no amor. E como o ambiente se transformou em destino de peregrinação de românticos do mundo todo, julgou-se prudente recolher a escultura original para preservar sua integridade. A substituição, contudo, em nada alterou a tradição já estabelecida. Sejam românticos, admiradores da obra de Shakespeare ou do filme “Cartas para Julieta” ou turistas em busca de um cenário famoso, ao final, o desejo é um só: tocar o disputado seio e sorrir para a câmera. Cumprido o ritual, o pátio é deixado para trás e Verona, considerada a cidade do amor, pode então mostrar seus verdadeiros encantos.

Nas locações de Orgulho e Preconceito

A CASA DA FAMÍLIA BENNET

Groombridge Place, próxima à cidade de Tunbridge Wells, Kent, na Inglaterra. A casa remonta ao ano de 1239 e foi usada pelo diretor Joe Wright para representar Longbourn, a modesta moradia da família Bennet. Conhecê-la foi uma experiência tão emocionante que ainda hoje eu consigo ouvir o som dos meus passos sobre a estradinha de cascalho que dá acesso à sua entrada principal.

NETHERFIELD PARK E OS BINGLEY

“Senhor Bennet, ouviu dizer que Netherfield foi finalmente alugada”? Basildon Park, em Reading, é a mansão em estilo Georgiano do século XIX que emprestou sua beleza à Netherfield, a residência do Sr. Bingley. Além da fachada, a produção do filme fez de cenário alguns de seus cômodos, como descobrimos enquanto visitamos seu interior. A sala Octogonal, na qual Darcy escreve uma carta para a irmã Georgiana, recebeu paredes falsas para cobrir um vermelho inapropriado ao ambiente. E a sala de jantar, transformada na sala de café da manhã onde Bingley, sua irmã Caroline e seu amigo Darcy recebem uma enlameada Elizabeth. “Pelos céus. Viu o estado dela? Mergulhada em lama. É incrivelmente medieval”. Essa mesma sala dá lugar ao baile “de tirar o fôlego”, no qual Darcy e Lizzy finalmente se aproximam, depois que ele a convida para uma dança. Aliás, essa é para mim uma das melhores cenas. No momento em que o Sr. Darcy diz à Lizzy que espera “esclarecer as coisas melhor no futuro”, todos aqueles que os cercam desaparecem magicamente e vemos apenas os dois no salão, como se nada mais existisse, além da ideia de que haverá um futuro em comum. É uma cena muito romântica.

PERMBERLY, A MANSÃO DO SR. DARCY

Depois de uma caminhada de quarenta minutos por uma estradinha de terra batida cercada de árvores que formavam uma sombra agradável sob o sol da manhã, chego a Pemberly. Quer dizer, chego a Chatsworth House, a locação mais imponente e elegante de “Orgulho e Preconceito”, bem à altura do Sr. Darcy, seu morador fictício. O lugar está cheio de pessoas. Umas caminham pelos jardins. Outras fazem piquenique. Crianças correm em círculos. E senhoras conversam animadamente enquanto tomam café às mesas externas da cafeteria. A propriedade, considerada o destino rural favorito dos ingleses, fica no condado de Derbyshire e é famosa pelos lindos jardins. Joe Wright, o diretor do filme, não a escolheu aleatoriamente para recriar Pemberly. Acredita-se que a própria Jane Austen a tenha imaginado para seu romance após uma rápida e inspiradora visita a Chesterfield e Chatsworth. A incursão ao interior do Palácio é igualmente impactante, mas nenhum cômodo supera a sala das esculturas, um dos pontos altos da visita e para a qual eu reservava maior expectativa. “Meu Deus, Meu Deus”, diz a tia de Lizzy enquanto entra no suntuoso ambiente. E essa é exatamente a minha reação enquanto refaço seus passos.

STOURHEAD GARDEN E O PRIMEIRO PEDIDO DE CASAMENTO

No livro, o primeiro pedido de casamento feito pelo Sr. Darcy à Elizabeth acontece dentro de um presbitério. No filme, o lugar escolhido pelo diretor Joe Wright para o emocionante diálogo travado entre os dois foi o Stourhead Garden, no condado de Wiltshire, em Warminster, há umas duas horas de Londres. O jardim é um dos mais famosos da Inglaterra e certamente um dos mais lindos e românticos que eu conheci. Templos, cascatas, ruínas do Império Romano, estátuas de figuras mitológicas, pequenas edificações e um trabalho paisagístico extraordinário compõem a paisagem. O diretor Wright foi muito primoroso na escolha das locações. Os cenários são de tirar o fôlego.

PONTE PALLADIANA

Depois de ouvir algo terrível sobre o Sr. Darcy, Lizzy corre desesperadamente para longe dele, sob uma forte tempestade. Ela atravessa a ponte Palladiana e num instante chega ao Templo de Apolo, onde ele a surpreende. Eu, enquanto visito Stourhead, descubro que ponte e templo não ficam próximos um do outro como a edição do filme nos faz acreditar. Então, refazer o trajeto da protagonista demanda um pouco mais de tempo e um maior esforço físico, devidamente recompensados pelas lindas paisagens.

TEMPLO DE APOLO

O lugar escolhido pelo diretor Wright para a cena do primeiro pedido de casamento:

– Senhorita Elizabeth, lutei em vão e não consigo mais aguentar. Estes meses têm sido um tormento. Vim para Rosings com o único objetivo de vê-la. Lutei contra o meu bom senso, as expectativas de minha família, a inferioridade de seu nascimento, a minha posição. Estou disposto a por todas essas circunstâncias de lado. E peço-lhe para acabar com a minha agonia.

– Eu não entendo.

– Eu te amo. Muito ardentemente. Por favor, dê-me a honra de aceitar a minha mão.

Orgulho e Preconceito

A névoa da manhã ainda não se dissipou, mas eu posso vê-lo através dela. Ele caminha em minha direção com passos firmes e decididos e eu acho que o meu coração vai sair pela boca. E que sensação estranha é essa no meu estômago? Que homem lindo. Que visão encantadora ele oferece. Eu poderia passar a eternidade a contemplá-lo. É possível que eu esteja ainda mais apaixonada? A maneira como ele fala. O som da sua voz. E então, quando eu me dou conta, já estou com suas mãos entre as minhas e tudo o que consigo dizer é que elas estão frias. Lentamente, encosto minha testa na dele e deixo que os primeiros raios solares nos iluminem e nos aqueçam enquanto ficamos assim, em silêncio, com os rostos colados e as mãos entrelaçadas como se fôssemos um. Na minha cabeça a sua declaração ainda ecoa e dá aos meus lábios o sorriso mais feliz: “Você enfeitiçou o meu corpo e a minha alma e eu a amo, eu a amo, eu a amo. Não quero mais estar longe de você de hoje em diante”. O filme ”Orgulho e Preconceito” (“Pride and Prejudice”), do diretor Joe Wright, é um dos meus preferidos. Eu até perdi a conta de quantas vezes eu o assisti. A profundidade e as sutilezas que envolvem a história de amor entre Elizabeth Bennet e Fitzwilliam Darcy retratada nos cenários e fotografia que enchem os olhos, no elenco impecável, nos diálogos inteligentemente construídos e na linda trilha sonora do compositor Dario Marianelli sempre me servem de refúgio para as durezas da vida. Suas imagens são tão vívidas na minha cabeça que eu consigo recorrer a ele mesmo em pensamento. Sou capaz inclusive de reproduzir diálogos inteiros. “Orgulho e Preconceito” é uma adaptação do livro homônimo de uma das mais importantes escritoras, a inglesa Jane Austen, uma mulher que esteve à frente de seu tempo. E o filme tem ainda o mais perfeito protagonista. O ator Matthew Macfadyen me deixou completamente apaixonada pelo seu ético, generoso, tímido e romântico Mr. Darcy. O meu amor por esse trabalho de Wright, em especial, é tão autêntico que durante uma viagem de férias à Inglaterra eu incluí no roteiro algumas de suas locações. Casas, jardins e monumentos que inspiram romantismo e delicadeza, como o inesquecível casal de protagonistas.

Postman’s Park

A entrada do jardim Postman’s Park, que fica próxima à Catedral St. Paul’s, em Londres, é bastante tímida e mal nos convida a entrar. O espaço é pequeno e as árvores e flores são bem escassas. Alguns bancos de madeira, o canto dos pássaros e o pouco público presente contribuem para a criação de um cenário melancólico. Mas esse jardim modesto, que luta pela sobrevivência entre o concreto da região, abriga um tesouro. É em uma de suas paredes que está uma das mais lindas homenagens já prestadas aos heróis da vida real. O “Memorial to Heroic Self Sacrifice” dá uma nova vida àqueles que a perderam enquanto tentavam salvar outras. Em placas de cerâmica coloridas, os nomes e os gestos heróicos desses personagens anônimos foram registrados e deixados para a posteridade como exemplos de altruísmo e nobreza. E quis o destino e o cineasta americano Mike Nichols que uma dessas pessoas recebesse uma reverência ainda maior. Alice Ayres, a jovem de 25 anos que morreu no incêndio do qual salvou seus três sobrinhos, foi o pseudônimo adotado pela personagem da atriz Natalie Portman no inesquecível, instigante e premiado filme, “Closer”. Às vezes, eu me pego pensando nas duas Alices. Na heroína da vida real, que colocou a própria vida em risco para salvar três crianças, e na heroína da ficção, que salvou a si mesma quando escolheu deixar para trás um amor conturbado e não correspondido. A cena final, na qual ela caminha confiante e decidida em meio à multidão, é muito inspiradora. E nos enche de coragem, assim como as pessoas extraordinárias aqui homenageadas