Colônia del Sacramento

Depois de duas horas de estrada a partir de Montevidéu, capital do Uruguai, chegamos à charmosa cidadezinha Colônia del Sacramento. A nossa vontade de bater perna pelo seu famoso bairro histórico é tamanha que corremos deixar nossas coisas no quarto do hotel e saímos para percorre-lo. Aqui é possível pular aquela parte do check-in em que a recepcionista nos entrega o mapa local e oferece recomendações de segurança. Caminhar pelas ruas tranquilas de pedra em meio aos vestígios da cidade antiga é uma atração por si só. Reconhecida pela Unesco como Patrimônio da Humanidade, em 1995, devido ao trabalho de restauração que garantiu a autenticidade e a preservação das construções, Colônia logo nos envolve na sua acolhedora atmosfera e nos ensina a desacelerar os passos e, sobretudo, os pensamentos. Banhada pelo Rio da Prata, onde também faz divisa com Buenos Aires, ela é acima de tudo fotogênica. O colorido das flores, as mesinhas externas dos restaurantes e cafeterias e as casinhas coloniais nos inspiram a flanar e absorver seu ar histórico, poético e romântico. Fundada em 1680, a mando do Império Português, para abrigar um presídio militar e alvo de disputas com a Espanha, a cidade revela através de sua arquitetura as influências deixadas pelos dois países, entre os séculos XVII e XVIII. Esse misto de traços evidencia a luta que travaram pela permanência. A rua mais emblemática, a Calle de los Suspiros, mantém-se exatamente como era há três séculos. A origem de seu nome, contudo, ainda é uma incógnita. Alguns dizem que os suspiros vinham dos homens que cobiçavam as jovens prostitutas que ali trabalhavam. Ou das próprias mulheres. Outros, dizem que os suspiros eram dados por condenados à morte, a caminho do Rio da Prata, onde eram executados. E a terceira, a de que uma jovem, à espera do amado, fora assassinada por um homem mascarado e deu ali o seu último suspiro. Mas o que desperta mesmo o interesse pela rua é constatar que ela sobreviveu às ações do tempo e dos homens. Depois de atravessá-la, visitamos a igreja local, a Basílica do Santíssimo Sacramento, e subimos no Farol. Construído no século XIX e hoje transformado num mirante, o lugar oferece uma vista privilegiada para a vastidão e beleza do Rio da Prata. E pensar que no passado essas águas pacíficas eram uma importante rota comercial, inclusive para o tráfico de escravos. Observa-lo me faz lembrar do poema “Mar Português”, de Fernando Pessoa: “quanto do teu sal são lágrimas de Portugal”. Aqui, quanto dessas águas são lágrimas de dor, sofrimento, revolta e incompreensão. Antes de assistir ao pôr do sol, considerado imperdível, percorremos o Portón de Campo, a muralha que foi reconstruída com as pedras usadas para fechar seu fosso. À noite, as luzinhas dos diversos restaurantes conferem uma atmosfera ainda mais intimista e encantam os turistas que lotam suas mesas. Mas, de fato, é o pôr do sol o seu atrativo mais fascinante. Quando o momento se aproxima, os turistas começam a caminhar rumo às margens do rio e então tomam seus lugares sobre o gramado. Variações de amarelo e laranja colorem o céu e também o tapete de água que as refletem. A quietude e o estado contemplativo das pessoas enriquecem o cenário. E quando o sol se põe completamente, um tom de rosa sobrenatural me faz acreditar que o céu já não é o céu, mas uma tela cuja pintura foi concebida pelas mãos de Deus. E então eu descubro que nada aqui poderia me comover mais. Assim como os campos de trigo lembram a raposa dos cabelos dourados do Pequeno Príncipe, um pôr do sol sempre me fará pensar em Colônia del Sacramento.

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