

A possibilidade de vê-la era remota. O céu estava completamente encoberto. O que era uma condição nada favorável à nossa aventura. Ainda assim, eu tinha esperança. Eu não teria viajado milhares de quilômetros se ela não me acompanhasse. Mas era uma esperança seguida de inquietação. E acho que o Eerikki, nosso guia, especializado em sobrevivência na natureza selvagem e entendido de meteorologia, tinha também algum conhecimento em psicologia, pois ele rapidamente percebeu minha ansiedade e me tranquilizou. Ele disse: “Nós só precisamos buscar um céu limpo, livre de nuvens, e então estaremos mais próximos de alcançar nosso objetivo”. Com a esperança renovada, eu logo percebi que o passeio poderia se transformar em uma viagem bastante longa. A gente entraria no carro e percorreria a rodovia meio sem rumo, não à procura de um lugar específico, mas de qualquer local que oferecesse um céu límpido. E a julgar pelo que eu via naquele momento, isso poderia levar muito, muito tempo. Uma vez dentro do carro, eu não tirava os olhos do céu. Nunca se sabe quando e onde ela pode aparecer. Passados quarenta minutos na estrada escura, já era possível ver uma estrela aqui e outra ali. E então, repentinamente, o céu estava cravejado de pontinhos luminosos. A Lua, baixa e brilhante, refletia-se no delicado riacho que corria ao lado da rodovia. Nós estávamos livres da neblina e agora podíamos descer do carro e esperar. Três horas depois e nada dela, a Dama da Noite. A gente estava cansada e com frio. Os meus pés doíam, mesmo calçados com meias térmicas e botas especiais, e eu tremia de medo só de pensar que eles poderiam congelar. O desgaste era tamanho que eu já não me importava em voltar para o hotel. Eu torcia para que o guia desistisse da espera e nos levasse de volta ao aconchego e aquecimento do nosso chalé. Porém, contrariando a minha expectativa, ele acendeu uma lanterna no mais completo breu e nos conduziu até uma ponte. E então, pediu-nos para esperar um pouco mais por uma possível atividade. Ele parecia saber de alguma coisa. E considerando a sua vasta experiência, eu não ousaria duvidar que ele realmente soubesse. Saariselkä, a pequena cidadezinha no Norte da Finlândia, que ele escolheu para morar e trabalhar, e que nós escolhemos como ponto de partida para nossas caçadas à Aurora Boreal, está localizada na região da Lapônia, próxima ao Círculo Polar Ártico, e, por essa razão, é considerada um dos principais destinos para quem busca encontrar as Luzes do Norte, ou Northern Lights. A expertise do Eerikki ficou evidente quando sua persistência foi recompensada. Ele afirmou que havia alguma coisa acontecendo no horizonte, enquanto nós só víamos uma mancha branca que poderia perfeitamente ser uma nuvem. Mas então nós vimos. Nós vimos quando essa mancha passou a um tom de verde bem clarinho e, subitamente, transformou-se em um arco, cuja cor verde aumentou de intensidade e iluminou-se. As luzes do Norte. Uma Aurora Boreal, ainda que timidamente, materializou-se diante de nossos olhos incrédulos. De repente, nós havíamos esquecido do cansaço, das dores e tínhamos olhos e pensamentos voltados para o céu. O guia ficou especialmente feliz com a nossa realização e registrou o momento com algumas fotos. “Não se mexam. Não se mexam”, ele pedia, para que o tempo de exposição ao obturador da câmera pudesse registrar a Aurora Boreal como pano de fundo dos nossos sorrisos emocionados. Nas duas noites seguintes, ainda na Finlândia, nós não tivemos a mesma sorte e as outras caçadas foram infrutíferas, mas a permanência no país foi inesquecível. Nós estávamos de férias e desfrutamos de bons momentos em caminhadas silenciosas pela floresta e sentadas ao redor de fogueiras, bem abastecidas com sopa de carne e legumes e chocolate quente e de histórias e lendas envolventes sobre A Dama da Noite. Seguimos nossa viagem até um de seus vizinhos, a Noruega. A cidade de Tromsø, na região Norte do país, está mais próxima do Círculo Polar Ártico e, portanto, oferece condições perfeitas para a visualização do fenômeno celeste mais bonito do mundo, sendo reconhecida como a capital mundial da Aurora Boreal. Esse espetáculo único de luzes, cores e movimentos é desencadeado quando partículas solares rompem a atmosfera terrestre. O Sol, além de emitir luz e calor, também emite ventos que estão repletos de partículas. Quando essas partículas são atraídas para os polos do planeta pelos campos magnéticos, e interagem com os gases presentes na atmosfera, surge a Aurora Boreal. A luz verde é emitida pela interação dessas partículas com o oxigênio. Enquanto a coloração púrpura vem do contato com o nitrogênio. Na noite da caçada, nós saímos com mais vinte pessoas dentro de um ônibus, para longe das luzes artificias da cidade. Nada do glamour do carro e do motorista privativos. Isso só para nos mostrar que, independentemente do meio de transporte, é preciso certa dose de sorte para se estar no lugar certo quando acontecem as atividades solares. Enquanto esperávamos horas a fio olhando para o céu, eles nos serviam chocolate quente e cookies maravilhosos. Durante a madrugada, uma faixa de luz verde apareceu no céu e as pessoas começaram a se agitar. E eu sentia como se não houvesse nada mais no mundo além de mim e do céu. E então, quando as luzes cobriram as nossas cabeças e começaram a dançar vertiginosamente, em variações de verde e tons de púrpura, eu congelei. Eu as olhava de boca aberta e repetia em pensamento: “O que tá acontecendo aqui? Não pode ser. Não pode ser”. A mágica estava acontecendo. Um sonho se realizando. Com movimentos delicados, suas ondas luminosas desenhavam formas alucinantes. Começou de um lado. E depois apareceu também no outro. E então no centro, para onde se convergiram formando uma boca enorme que parecia querer me engolir. E engoliu. Ou melhor, sugou. Eu estava petrificada. Hipnotizada. Era como se toda a minha energia estivesse nela. E estava. As luzes do Norte refletidas nos meus olhos. Pouco a pouco, então, à medida em que essas luzes se apagavam e suas formas se desfaziam como castelos no ar, a energia voltava ao meu corpo. Duplicada. Triplicada. Era muita adrenalina. Eu queria rir e chorar e gritar e pular. Eu queria que ela começasse de novo e fizesse sua mágica outra vez. Mas ela se fora, completamente. Na verdade, não completamente. A Aurora Boreal agora acontece no céu das minhas lembranças.
