De Kilpisjärvi a Tromsø

A neblina da manhã ainda cobria o horizonte quando deixamos Kilpisjärvi para trás. Enquanto o carro percorria a estrada rumo à cidade de Tromsø, na Noruega, eu mergulhava nas cenas bucólicas que passavam pela minha janela. E elas se descortinavam exatamente como eu via nos meus sonhos de Lapônia. Neve sobre a rodovia, nos galhos secos das árvores e nas moradias modestas e charmosas cujos habitantes não se faziam notar. A solidão que aquelas casas inspiravam me levaram a pensar no nosso guia Martti e na sua esposa, Sinikka. Na tarde anterior, depois de uma longa caminhada em meio à natureza do lugar, eles nos levaram a uma cafeteria e ofereceram café e uma fatia de bolo para acompanhar nossa conversa. E então falaram sobre seu modo de vida e sobre a importância de se gostar do frio, do isolamento e da escuridão que chegam com o inverno para conseguir viver sob essas condições. E como eles aguardam ansiosamente por essa época do ano para ouvir o silêncio, descansar, ler e preparar as comidinhas da estação. Eu refletia sobre o quanto Kilpisjärvi parecerá ainda mais bonita sempre que eu me lembrar dos dois quando fui interrompida pelo motorista, que nos sugeriu observar as mudanças gradativas de clima e vegetação que acontecem ao longo do caminho. A estrada E8, que liga Tornio, na Finlândia, a Tromsø, é sem dúvida uma das mais cênicas que eu já viajei. Talvez se equipare em beleza ao trajeto de Banff a Jasper, no Canadá. Criada inicialmente apenas para o trânsito de renas e trenós, a estrada foi implementada pelas tropas alemãs que ocupavam a Noruega durante a Segunda Guerra Mundial, a fim de possibilitar o tráfego rodoviário das fronteiras nacionais. Hoje, é uma importante rota de comunicação entre noruegueses, finlandeses e suecos. A percepção das diferenças apontadas pelo motorista acontece quando a vegetação típica de floresta da Finlândia dá lugar às exuberantes e espetaculares montanhas da Noruega. Algumas delas com o privilégio de ver a própria beleza refletida nas águas límpidas e gélidas que ficam aos seus pés. Contempla-las durante a viagem é descobrir que aquele que ama a natureza, da qual também faz parte, nunca está completamente só.

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