São Miguel do Gostoso

Uma pequena vila de pescadores, a uma distância de mais de 100 quilômetros de Natal, no Estado do Rio Grande do Norte. Uma Capela de São Miguel Arcanjo, erguida no início do século dezenove, como pagamento de uma promessa feita por um comerciante local que atribuiu ao seu Santo de devoção a cura de uma doença. Um pescador, e um dos primeiros moradores da Vila, famoso pelos causos engraçados e pela maneira gostosa de rir. “Ele ria gostoso”. São Miguel do Seu Gostoso foi como as pessoas passaram a identificar a cidade. Na data de sua emancipação, como já havia uma outra São Miguel, assim ela foi registrada: São Miguel do Gostoso. E eu nem precisei do Google para pesquisar a origem do nome desse paraíso. O motorista que nos levou do aeroporto de Natal até a pousada, na modesta cidadezinha de praias lindas e tranquilas, sabia de tudo um pouco. Eles sempre sabem. Os motoristas e taxistas acostumados a trabalhar com turistas, quando gostam do que fazem, sempre dão uma boa primeira impressão de um novo lugar. O taxista que pegamos no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, parecia um sujeito antipático, mas quando me viu apontar para a Basílica do Sacré Coeur e dizer Amélie Poulain para a minha irmã, abriu um amigável sorriso e passou a indicar cada uma das belezas do trajeto. O que nos buscou numa festa junina na Cidade de Goiás desligou o carro no meio da mais completa escuridão para que pudéssemos contemplar um céu estrelado espetacular, que nos fez entender o termo “chão de estrelas”. O taxista de Brumadinho, em Belo Horizonte, era um senhorzinho miúdo, engraçado e falante que transformou numa atração à parte a distância percorrida entre o Instituto Inhotim e o nosso hotel. A hospitalidade desses profissionais e as histórias que compartilham estão sempre associadas às minhas boas lembranças de viagem.

A vila flutuante

Com quase duas horas de atraso no voo de Ho Chi Minh City, no Vietnã, para Siem Reap, no Camboja, minha irmã e eu perdemos a visita ao museu que conta a história do país. Então almoçamos, deixamos as coisas no hotel e seguimos para o Tonle Sap, o maior lago de água doce do Sudeste Asiático. Ele é tão absurdamente extenso que a todo momento você tem a sensação de estar em alto mar. Porém, o que mais me impressionou nem foi a vastidão do lago, mas o que está na sua superfície – a floating village. Pequenas casas de madeira construídas sobre palafitas e habitadas de verdade pelo povo local, diferentemente das casinhas arrumadinhas e cenográficas do Lago Titicaca, no Peru. No vilarejo aquático estão presentes a escola, a igreja, o mercado e uma enorme quantidade de barcos de moradores e de embarcações turísticas. Esse meio de transporte é tão necessário e corriqueiro que é comum ver até crianças pilotando barcos motorizados. Os seus moradores são muito, muito carentes. E observá-los durante o passeio é mais melancólico do que poético. Segundo o nosso guia, essas famílias costumam jantar por volta das dezoito horas para aproveitar a luz natural. Dormem por volta das vinte horas para poupar o uso do gerador, e às quatro da manhã já estão de pé para começar o novo dia. O lago é o que elas conhecem do mundo. Do lago, por meio da pesca e do turismo, elas tiram o seu sustento. No lago elas cumprem suas atividades diárias. No lago elas sonham… sonhos de sobrevivência. O sol brilha e o seu brilho se reflete na água e em tudo que está sobre ela, mas então ele se põe. E quando começa a escurecer, nós precisamos deixar aquelas pessoas para trás. Embora já não seja possível deixá-las de verdade. Depois que você as conhece, é difícil esquecê-las. De algum modo, elas seguem com você. E uma parte sua – aquela que desconhecia esse modo de vida, é deixada com elas… na vila flutuante.

O Museu do Vasa

Esse é o Vasa, o impressionante navio de guerra sueco construído por determinação do Rei Gustavo Adolfo II, que afundou em 10 de agosto de 1628, poucos minutos depois da partida para aquela que seria a sua viagem inaugural. O naufrágio, que envergonhou a nação e provocou a morte de trinta a cinquenta pessoas, de um total estimado em cento e quarenta e cinco, aconteceu ainda no porto, em decorrência de uma rajada de vento que fez a embarcação inclinar para a esquerda e ser invadida pela água através das portas de armas inferiores. Em 1961, passados trezentos e trinta e três anos à uma profundidade de trinta e dois metros, o navio foi resgatado e submetido a um minucioso e importante trabalho de restauração. Em 1990, completamente recuperado, ele recebeu o próprio atracadouro, o Museu do Vasa, onde o encontramos hoje. Talvez, há quem pense que seja apenas a exibição de um navio cujo propósito foi por água abaixo, literalmente. Contudo, a visita te embarca no envolvente universo das descobertas feitas a partir de estudos do que foi encontrado dentro dele, dos ornamentos talhados em madeira no seu casco, de seu desenho e execução e mesmo de seu estado de preservação, já que foi capaz de sobreviver aos séculos. É uma viagem no tempo para a Suécia do início do século XVII e para os costumes das pessoas que estiveram de alguma maneira ligadas pelo ambicioso projeto. Sinceramente, eu nem senti o tempo passar. E ainda deixei o Vasa com o pensamento nos homens que o construíram e tentaram navegá-lo. Como eles reagiriam se soubessem que o navio que provocou tragédia e vergonha é atualmente uma das mais populares atrações turísticas não só de Estocolmo, mas de toda a Escandinávia? O Vasa não alcançou oceanos, mas o resgate de sua história desfez as amarras, levantou a âncora, içou as velas e o permitiu navegar entre mares de respeito e admiração.

Eu adoro janelas

Vistas de dentro, elas oferecem

um mundo de oportunidades

e possibilidades.

Vistas de fora, elas oferecem

um mundo de aconchego

e intimidade.

Eu adoro janelas.

Fechadas,

elas decidem o que não deve entrar.

Abertas,

elas iluminam, arejam e alegram.

Eu adoro janelas.

Abertas ou fechadas.

Do lado de dentro ou do lado de fora.
Janelas delimitam o ângulo de visão

e então libertam a imaginação.

Nas roupinhas coloridas

Eu gostaria de pensar que suas vidas são tão divertidas quanto as roupas que usam para atrair a atenção e a empatia dos turistas. Eu gostaria de pensar que se eu passasse indiferente, se fosse capaz de ignorar o pedido de uma foto em troca de um dinheirinho, ou propina, como dizem as crianças peruanas, eu contribuiria para que elas tivessem uma condição de vida melhor. Uma condição que desse a elas o direito inalienável à infância. Essas cenas, tão comuns nas grandes cidades e nos lugares turísticos, apresentam-se sempre como uma dilema. Algumas pessoas argumentam que ajudá-las, na verdade, apenas perpetua sua exploração. Mas como é possível passar batido por essas crianças e ainda se gabar da atitude porque “essa é a melhor alternativa para combater o problema”? Eu sempre me pergunto: é melhor para quem? As razões que as levaram até ali são resultado de questões muito mais complexas, e eternizadas justamente por aqueles que fingem não vê-las. Fingem, pois nas roupinhas coloridas elas se fazem visíveis e denunciam o modo como vivem. Nas roupinhas coloridas elas encontram um meio de existir. Então, em situações como essas, eu procuro ouvir somente a voz do meu coração.

Kylemore Abbey

A Abadia de Kylemore é um dos mais importantes e esplêndidos cenários da Irlanda. Transformado no lar de freiras beneditinas, em 1920, esse Castelo que fica dentro do Parque Nacional de Connemara e que parece criado pelos estúdios Disney nasceu de uma história de amor, como num conto de fadas. Ele foi construído entre os anos de 1867 e 1871 pelo médico Mitchell Henry como uma declaração apaixonada para sua esposa Margaret, que voltou extasiada com as belezas da região, no município de Galway, cenário de sua Lua de Mel. Quatro anos depois da mudança para o romântico Castelo, cuja imagem reflete nas águas do lindo lago à sua margem, Margaret e Henry viajaram para o Egito, onde ela contraiu uma doença que a levou à morte dois dias depois de seu retorno. Com o coração partido, Henry mandou construir uma pequena igreja gótica em sua homenagem e, para que não deixasse a região que tanto amava, e que era sinônimo de paz e tranqüilidade, levantou também um mausoléu. Quando morreu, em 1910, suas cinzas foram levadas para o mesmo local da esposa, de acordo com seu último desejo. Enquanto eu percorro as alamedas de Kylemore e visito a Abadia, a pequena igreja e o mausoléu eu sinto toda a tristeza e beleza que emanam desse lugar. Caminho até o charmoso jardim vitoriano, já no término da visita, e em meio ao colorido das flores eu só consigo pensar na poesia que surge do sofrimento daqueles que conheceram e viveram um amor. O não sofrimento seria o não amor. Margaret e Henry perderam um ao outro cedo demais, mas esse forte sentimento que nutriam rompe a barreira imposta pelo tempo e ainda vive. É isso que as paredes de Kylemore Abbey e a natureza estonteante que as cercam confidenciam.

A resistência de York

A cidade histórica de York, no condado de Yorkshire, é um dos destinos mais procurados na Inglaterra. York foi capital do Império Romano e palco para a proclamação do imperador Constantino, o Grande, no ano de 306. Invadida por Vikings e Normandos assistiu a uma série de eventos de destruição e reconstrução. A muralha romana que cerca a cidade permanece de pé, assim como a Catedral, em estilo gótico. Caminhar pela Shambles, ruazinhas medievais estreitas nas quais funcionavam apenas açougues, e que serviu de inspiração para a escritora J.K. Rowling criar o Beco Diagonal da saga Harry Potter, também permite uma outra viagem no tempo. Enquanto eu observo as ruínas da St. Mary’s Abbey, sentada num dos bancos do jardim do Museu de York, eu descubro que elas me trazem paz. Eu penso nas pessoas que a construíram e que partiram sem descobrir sua capacidade de resistir. Eu penso nas pessoas que passaram nesse mesmo lugar e que hoje não existem mais. Penso que essas ruínas sobreviverão a mim e à outros que virão. E pensar numa permanência possível é muito reconfortante.

Linha M

“O Café ‘Ino está vazio, a não ser pelo cozinheiro mexicano e por um garoto chamado Zak, que atende meu pedido habitual de torrada de pão integral, um pratinho de azeite e café preto. Me instalo no meu canto, ainda de casaco e gorro. São nove da manhã. Sou a primeira a chegar. Bedford Street enquanto a cidade acorda. Minha mesa, ladeada pela máquina de café e pela vitrine, me proporciona uma sensação de privacidade, onde me recolho na minha atmosfera particular… Estico as pernas e fico contemplando Zak cumprir suas tarefas matinais. Ele nem faz ideia que eu já sonhei em ter um café. Acho que essa vontade surgiu com leituras sobre a importância dos cafés na vida dos beats, dos surrealistas e dos poetas simbolistas franceses. Não existiam cafés onde eu cresci, mas havia nos meus livros, e eles floresceram nos meus sonhos. Em 1965 eu vim de South Jersey a Nova York só para perambular por aqui, e nada me parecia mais romântico que sentar e escrever poesia num café do Greenwich Village.” – Patti Smith, no seu lindo e tocante livro de memórias, Linha M.

Livros são portais

Peço um macchiato enquanto flerto com os lindos doces que me sorriem da vitrine. Tortinhas de morango, eclairs de caramelo e chocolate, fatias de bolo e brigadeiros. Como eu gosto de brigadeiro… Mas resisto bravamente ao seu poder de sedução e me contento com o simpático biscoitinho que acompanha meu expresso com leite. Busco uma mesa e acomodo minhas coisas. A Patti chega logo em seguida, puxa uma cadeira e senta ao meu lado. Ela sempre vem ao meu encontro quando eu preciso dela. Embora seja reconhecida como uma das mais importantes e influentes artistas da história do rock, cujo álbum de estreia, Horses, é tido como o precursor do punk, e ainda uma cultuada e aclamada compositora, musicista, poetisa e escritora, Patti Smith se mantém simples e acessível. Eu a conheci em 2011, quando li seu delicado e tocante livro de memórias, “Só Garotos”. Uma história tão envolvente que me senti desamparada quando terminei sua leitura. Aguardei ansiosa o lançamento de seu livro seguinte, “Linha M”, e o comprei assim que ele chegou às livrarias. Essa é a segunda vez que meus olhos percorrem suas linhas. Eu preciso me deixar envolver novamente pela atmosfera melancólica e poética de suas recordações. Reflexões sobre amor e perda. Passado e presente. A morte irremediável de seu marido, Fred Sonic Smith, e as lembranças de um tempo que nunca mais será. Eu quero caminhar ao seu lado pelas ruas, cafeterias e livrarias de Nova York, Berlim e Londres. Assim como Patti, eu tenho necessidade de ser levada para outras paragens. E como ela mesma afirma, “livros são portais que nos ajudam a renascer”. Depois de uma perda irreparável é preciso se reinventar. “Desejamos coisas que não podemos ter. Tentamos conservar certos momentos, sons, emoções. Quero ouvir a voz da minha mãe. Quero ver meus filhos ainda crianças. Mãozinhas pequenas, pés ligeiros. Tudo muda. Garoto crescido, pai morto, filha mais alta que eu, chorando por causa de um sonho ruim. Por favor, fiquem aqui para sempre, digo para as coisas. Não vão embora. Não cresçam”. Fecho o livro e contemplo sua capa. O primeiro e último registro de Patti Smith à mesa cativa que a acolheu por mais de dez anos no agora extinto Café ‘Ino, no Greenwich Village, em Nova York. A imagem da desolação. Caminho de volta ao trabalho e, como se ela pudesse me ouvir, agradeço em pensamento pelas histórias compartilhadas tão generosamente e que hoje me ajudam a renascer. É verdade, “livros são portais” e aqueles que os abrem são seres mágicos, capazes de transformar palavras em pontes. E acolhimento.


No sabor do meu expresso

Elas almoçaram e agora ocupam quase todas as mesas da pequena cafeteria. Consigo me sentar à uma delas, num cantinho reservado. Estou com sorte. Quando eu posso escolher sempre dou preferência a esses lugares. A atendente anota o meu pedido de um café e um brigadeiro e volta ao balcão. Enquanto espero, tiro um livro da bolsa e retomo a leitura de onde parei. Mas o barulho do ambiente rompe a minha concentração e eu resolvo prestar atenção aos sons à minha volta. Sentadas aos pares ou em grupos, as pessoas conversam com grande entusiasmo. O coro formado por dezenas de vozes só é abafado pelo funcionamento da máquina de café e pelo tilintar das xícaras e pires sendo lavados. O meu expresso chega, e no instante em que abro o envelope do adoçante me dou conta de como sou feliz em momentos como esse. Acompanhada de amigos, sozinha com os próprios pensamentos, com um livro ou uma revista nas mãos, ou viajando enquanto observo, ou penso observar, as pessoas que passam diante de mim, eu sinto paz. Então eu lembro do que o meu irmão me disse certa vez: “Ju, sabia que eu aprendi a gostar de café com você?”. Os meus olhos se enchem d’água e os meus lábios sorriem. No dia que eu ouvi isso eu fui a mais orgulhosa e feliz das irmãs. Eu, que tanto aprendi ao seu lado e que fui transformada pelas suas palavras, amizade e amor, havia deixado nele algo meu. E era esse gosto pelas pequenas pausas que um cafezinho promove, sempre tão prazerosas e gratificantes. Fecho meu livro e o coloco de volta na bolsa. Agora tudo o que eu quero é reviver essa lembrança e reencontrá-lo no sabor do meu expresso.