Orgulho e Preconceito

A névoa da manhã ainda não se dissipou, mas eu posso vê-lo através dela. Ele caminha em minha direção com passos firmes e decididos e eu acho que o meu coração vai sair pela boca. E que sensação estranha é essa no meu estômago? Que homem lindo. Que visão encantadora ele oferece. Eu poderia passar a eternidade a contemplá-lo. É possível que eu esteja ainda mais apaixonada? A maneira como ele fala. O som da sua voz. E então, quando eu me dou conta, já estou com suas mãos entre as minhas e tudo o que consigo dizer é que elas estão frias. Lentamente, encosto minha testa na dele e deixo que os primeiros raios solares nos iluminem e nos aqueçam enquanto ficamos assim, em silêncio, com os rostos colados e as mãos entrelaçadas como se fôssemos um. Na minha cabeça a sua declaração ainda ecoa e dá aos meus lábios o sorriso mais feliz: “Você enfeitiçou o meu corpo e a minha alma e eu a amo, eu a amo, eu a amo. Não quero mais estar longe de você de hoje em diante”. O filme ”Orgulho e Preconceito” (“Pride and Prejudice”), do diretor Joe Wright, é um dos meus preferidos. Eu até perdi a conta de quantas vezes eu o assisti. A profundidade e as sutilezas que envolvem a história de amor entre Elizabeth Bennet e Fitzwilliam Darcy retratada nos cenários e fotografia que enchem os olhos, no elenco impecável, nos diálogos inteligentemente construídos e na linda trilha sonora do compositor Dario Marianelli sempre me servem de refúgio para as durezas da vida. Suas imagens são tão vívidas na minha cabeça que eu consigo recorrer a ele mesmo em pensamento. Sou capaz inclusive de reproduzir diálogos inteiros. “Orgulho e Preconceito” é uma adaptação do livro homônimo de uma das mais importantes escritoras, a inglesa Jane Austen, uma mulher que esteve à frente de seu tempo. E o filme tem ainda o mais perfeito protagonista. O ator Matthew Macfadyen me deixou completamente apaixonada pelo seu ético, generoso, tímido e romântico Mr. Darcy. O meu amor por esse trabalho de Wright, em especial, é tão autêntico que durante uma viagem de férias à Inglaterra eu incluí no roteiro algumas de suas locações. Casas, jardins e monumentos que inspiram romantismo e delicadeza, como o inesquecível casal de protagonistas.

É uma verdade universalmente conhecida

É uma verdade universalmente conhecida que as mulheres lutam pela igualdade de direitos há muitos séculos. O corpo da escritora inglesa Jane Austen foi enterrado na Catedral de Winchester, no condado de Hampshire, sem nenhuma citação ao seu trabalho literário. Contudo, as mudanças promovidas pelo tempo trataram de reconhecê-la devidamente. A pedra original de seu túmulo permanece no chão, talvez como registro da injustiça cometida no passado. Mas na parede ao seu lado está pendurada uma placa dourada que traz sua redenção. “Conhecida por muitos pelos seus escritos”, diz a primeira frase da homenagem feita pelo sobrinho de Jane, Edward, em 1870, cinquenta e três anos após a morte de sua aclamada tia. Algum tempo depois, Jane Austen recebeu ainda uma exposição que ilustra sua vida, seu trabalho e sua morte precoce, aos quarenta e um anos, vítima de uma doença desconhecida. Embora a Catedral atraia milhares de turistas devido à sua grandiosidade, riqueza arquitetônica e importância histórica é notório que muitos a procuram pela possibilidade de visitar a escritora em sua última morada. Jardins esplêndidos, casas idílicas, construções medievais e até mesmo a Távola Redonda do Rei Arthur fazem da cidade de Winchester um lugar especial, mas saber que Jane passou nessa região seus últimos dias, e que ainda vive no amor de seus admiradores é o que verdadeiramente me promove uma experiência ímpar. A minha gratidão por ela vai além das linhas de seus romances. Suas narrativas, construídas a partir de personagens femininas fortes, apontam para a sua própria trajetória. Consciente de seu valor, e da qualidade de seu trabalho, ela jamais buscou um casamento de conveniência como meio de ascender socialmente. E defendia o direito à educação liberal para as mulheres, que recebiam apenas formação para habilidades apreciadas numa esposa, como bordar e cantar. Jane Austen recusou corajosamente o destino preestabelecido pelos pais e pela sociedade e seguiu o seu próprio caminho, passo a passo, e sem medo das consequências que suas escolhas trariam. Só assim ela pode se dedicar à sua maior paixão, a escrita. E essa estrada que ela percorreu, antes sombria, estreita e cheia de obstáculos, hoje é incansavelmente expandida pelas mulheres que caminham juntas rumo à realização dos sonhos que carregam.

As necessidades que criamos

Enquanto eu contemplo a frágil e delicada mesinha na qual Jane Austen revisou manuscritos e escreveu alguns de seus clássicos, como “Emma” e “Mansfield Park”, eu começo a refletir sobre as necessidades que criamos. Nos dias de hoje, Jane certamente ficaria feliz e satisfeita se pudesse substituir sua pena e tinteiro pelo mais recente notebook lançado pela Apple. O seu trabalho seria drasticamente facilitado, mas será que isso faria alguma diferença no seu processo criativo e na sua capacidade intelectual? Será que um alto investimento na aquisição de ferramentas de trabalho sofisticadas ajudaria a aprimorar sua aptidão para gerar ironias e sutilezas e apurar seu minucioso senso de observação? No caso de Jane Austen e de tantos outros escritores e artistas parece que os instrumentos indispensáveis ao ofício são outros. Dedicação, perseverança e a prática constante de habilidades e talentos talvez sejam atitudes mais assertivas para a concretização de um sonho ou objetivo. O que me leva a acreditar que é necessário, acima de tudo, concentrar esforços no aperfeiçoamento dos próprios hábitos. E o mesmo se aplica a qualquer coisa que façamos. A mesa de trabalho de Jane sobrevive há mais de 200 anos só para nos lembrar disso.

A casa de Jane Austen

A viagem de Londres ao vilarejo de Chawton, no condado de Hampshire, não é longa e a paisagem é agradável. O trem percorre os trilhos rapidamente e da estação ao destino basta uma curta caminhada. A chegada à casa onde Jane Austen viveu e escreveu alguns de seus romances, transformada em museu e aberta ao público em 1949, é emocionante. A família Austen esteve na romântica moradia, construída em estilo Georgiano, durante a fase mais produtiva da escritora, no período entre 1809 a 1817. Em 1817, aos 41 anos e já doente, ela se mudou com sua mãe e sua irmã Cassandra para Winchester, para que pudesse ficar próxima de seu médico. No Jane Austen’s House Museum estão dispostos poucos objetos originais de seu acervo pessoal, porém a principal peça impressiona pela sua simplicidade: uma minúscula mesa de trabalho. Acredita-se que foi sobre essa mesa que Jane revisou os manuscritos de “Orgulho e Preconceito”, “Razão e Sensibilidade” e “A Abadia de Northanger” e ainda escreveu “Emma”, “Mansfield Park” e “Persuasão”. Pensar sobre isso é comovente. A observação dos cômodos espartanos e a vista reduzida que se tem pelas janelas traz uma ideia ainda mais perturbadora do talento nato e extraordinário dessa mulher, que retratou a sociedade de sua época tão detalhada e profundamente. Ao final da visita é possível ainda caminhar pelo pequeno jardim, sentar em um dos bancos de madeira e se deixar envolver pela atmosfera poética do lugar, ao som dos pássaros e do farfalhar das folhas.

Aquele do Central Perk

A coisa toda começou numa cafeteria chamada Central Perk, em Nova Iorque. Durante muitos anos esse foi um dos nossos pontos de encontro favoritos. Eu me sentava ao lado deles naquele sofá confortável de veludo laranja, recebia uma enorme xícara de café das mãos da Rachel e esquecia do mundo enquanto ria loucamente diante daquelas situações absurdas. Com frequência, alguém da minha família passava por nós e não entendia nada. “Não sei o que tem de tão engraçado nisso”. Como assim, não sabe? Olha só essas caras. Muitas vezes, os meus f.r.i.e.n.d.s. nem precisavam abrir a boca. Assisti-los era como encontrar aquele amigo palhaço. Você se diverte antes mesmo que ele tenha tempo de lançar uma bobagem. Ainda hoje, passados alguns anos desde que eu assisti ao último episódio da última temporada, quando eu lembro de uma cena eu dou risada sozinha, como idiota. E sempre acabo reproduzindo alguma piada que obviamente ninguém entende, mas eu não resisto. Quando eu fui a Nova Iorque pela primeira vez, motivada pelo seriado, eu descobri na internet o endereço do prédio cuja fachada foi usada para representar o Café Central Perk e também os apartamentos da Mônica e do Chandler. E ali, como estátua numa esquina do Greenwich Village, eu não sabia se chorava ou ria. Era difícil conter tanta emoção. E foi assim que eu descobri um novo interesse. Nas férias, dependendo do destino escolhido, minha irmã e eu incluímos no roteiro algumas das locações dos nossos filmes mais queridos. Na Inglaterra, percorremos alguns cenários do nosso preferido, o delicado “Orgulho e Preconceito”, do diretor britânico Joe Wright. E fomos às casas de Jane Austen, autora da obra homônima na qual o filme foi baseado, e da escritora e ilustradora de livros infantis  Beatrix Potter, tão belamente interpretada pela atriz Renée Zellweger, em “Miss Potter”. Visitamos a livraria Shakespeare and Co., em Paris, porque lá esteve o casal Celine e Jesse em “Antes do Pôr do Sol”. Numa segunda visita  à cidade, comemos crème brûlée no Café Des Deux Moulins e quebramos sua crosta açucarada com paixão, como fez Amélie no poético “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”. Caminhamos pelas lindas paisagens de Dingle, na Irlanda, onde se conheceram Declan e Ana, da comédia romântica “Casa comigo”? Lugares especiais e inesquecíveis que eu conheci graças à esse primeiro impulso dado pela série, e pelos fãs que compartilharam suas poses em frente à fictícia fachada e me encheram de inspiração. Então, ofereço um brinde, com caneca de café, à Rachel, Phoebe, Mônica, Joey, Ross e Chandler, e a todas as pessoas que nos inspiram e nos deixam inspirar. 

Os girassóis

“Há alguns anos, um homem veio até mim depois do meu show. Eu tinha falado sobre tomar antidepressivos e ele queria dar sua opinião. Interessante, eu também falei que conselhos não solicitados não ajudam em casos de saúde mental, mas acho que ele não ouviu essa parte. E disse: ‘Você não deveria tomar remédio porque é uma artista. Sentir é importante para você. Se Vincent van Gogh tomasse remédio, não teríamos os girassóis’. Nunca pensei que meu diploma de História da Arte teria utilidade. Mas, meu Deus. A surra que eu dei no cara foi maior que meu financiamento estudantil. Falei: Boa opinião, parceiro. Exceto por ele ter tomado remédio. Bastante. Tomava por conta própria. Bebia muito. Ele até comia as tintas. Problema mental. E sabe o que mais? Ele não pintou só girassóis, mas fez vários retratos de psiquiatras. Não de psiquiatras aleatórios, mas dos que cuidavam dele. E o medicavam. E tem o retrato de um psiquiatra em particular em que ele segura uma flor, e não é um girassol. É uma dedaleira. E essa dedaleira faz parte de um medicamento que Van Gogh tomava para a epilepsia. E essa droga de remédio derivado da dedaleira… sabe o que acontece se esse derivado da dedaleira é ingerido em excesso? Você percebe a cor amarela mais intensa que o normal. Então, talvez, tenhamos os girassóis justamente porque Van Gogh tomava remédio. O que você acha, honestamente?, eu disse. Que para ser criativo você tem que sofrer? Que esse é o fardo da criatividade? Só pra você aproveitar? Vá se fuder, cara. Se gosta tanto de girassóis, compre um buquê e se masturbe num gerânio. E ele: ‘Não precisa ser tão sensível’. Não seja tão sensível. Esse é o conselho que eu mais recebo. Porque eu sou muito sensível. Mas eu não entendo. Por que deveríamos buscar a insensibilidade? Eu sei que minha sensibilidade é minha força. Sei disso. Minha sensibilidade me ajudou a atravessar um caminho muito difícil na vida. Quando alguém me diz para deixar de ser tão sensível, quer saber? Eu me sinto como um nariz levando bronca de um peido. Não é esse o problema.” 

Hannah Gadsby

“Rir não é o melhor remédio. O que cura são as histórias”. O stand-up barra monólogo “Nanette” é uma das coisas mais emocionantes e transformadoras que eu tive a honra de assistir. Nanette é o triunfo de uma mulher destruída que reuniu forças e conseguiu renascer. E que decidiu compartilhar suas histórias a fim de ocupar o espaço de sua existência e ajudar, inspirar e dar voz a tantas outras almas dilaceradas. Corajosamente, a comediante, ou melhor, a ex-comediante Hannah Gadsby conduz a narrativa de modo a envolver os ouvintes nas suas experiências e, uma vez envolvidos, fazer com que fiquem desconfortáveis com suas revelações. E o show, que começa leve e divertido, torna-se então repentinamente tenso. Uma tensão propositada que visa, por meio da sintonia estabelecida, questionar como cada um reage diante de episódios de violência, intolerância e injustiça dos quais não são vítimas, mas telespectadores. É desse modo que descobrimos que pior do que aquele que exclui é aquele que ignora a realidade da exclusão, como se ela não fosse um problema coletivo. Estamos conectados. “A minha história é a sua história”. Quando um indivíduo opta pelo não envolvimento, pela inação, ele escreve não só a própria história, mas também a daquela pessoa que teria o curso de sua vida alterado se recebesse a ajuda de que precisava. Por outro lado, quando uma pessoa é amparada, é como se a raça humana desse um passo adiante. E tentativas de constranger, ameaçar, calar e subjugar passam a ser confrontadas. Grupos minoritários, que talvez nem sejam tão minoritários como somos levados a acreditar, deixam os bastidores e passam a ocupar seus espaços. E suas palavras agitam mais e mais pessoas a fazerem o mesmo. “É da luz que a escuridão tem medo”. Para mim, é um alento e um sopro de fé na humanidade contemplar a Hannah sobre o palco. De posse do discurso, ela escreve não só a própria história, mas também a de todos aqueles que ao ouvi-la ganham força e coragem para existir.

Van Gogh

De manhã, antes de sair para o trabalho, faço um café e resolvo tomá-lo de pé, embora não esteja com pressa. Com a caneca quente entre as mãos, descanso o meu olhar sobre o pôster amarelo pendurado na parede que dá às boas-vindas a quem entra no apartamento. O pôster que eu comprei na loja do museu The National Gallery, em Londres, e que pedi à comissária de bordo da British Airways para me ajudar a acomodar no compartimento de bagagem de uma maneira que ninguém pudesse amassá-lo. Foram semanas carregando-o cuidadosamente enrolado num plástico nos diversos deslocamentos da viagem e não seria ali, a caminho de casa, que eu o deixaria sofrer algum dano. Uma reprodução de “Sunflowers”, uma das minhas telas preferidas e uma das mais importantes do pintor holandês Vincent van Gogh. Ele a pintou para decorar a “Yellow House”, como era conhecida a sua casa em Arles, no sul da França, que sonhava transformar numa colônia de artistas. Bastante animado com a visita do amigo Paul Gauguin, ele reservou essa, dentre uma série de outras seis telas de girassóis, para enfeitar o quarto que receberia o hóspede ilustre. Van Gogh associava a cor amarela à esperança e à amizade e queria que seus girassóis expressassem uma ideia de gratidão. Vindo dele, nada seria mais apropriado para uma acolhedora e afetuosa recepção. Enquanto eu contemplo o meu quadro, meio que hipnotizada, eu lembro das coisas que a comediante australiana Hannah Gadsby falou sobre ele no stand-up “Nanette”, que eu assisti na Netflix. O remédio que tomava para a epilepsia que ingerido em excesso podia alterar a percepção da cor amarela, que passava a ser mais intensa. Os retratos de seus psiquiatras. E os antidepressivos, que ocasionalmente eram tomados por conta própria. E então eu começo a me questionar: será que em algum momento Vincent van Gogh evitou os medicamentos com medo de que eles interferissem na sua capacidade de se expressar artisticamente? Será que ele estabelecia uma relação entre a doença e a sua natureza sensível e introspectiva? Como eu gostaria de conversar com ele… É tão reconfortante descobrir no outro um elemento seu. A identificação desperta a empatia e nos traz a sensação de pertencimento. Durante anos eu acreditei que meu sofrimento era fruto de uma sensibilidade excessiva, uma espécie de inaptidão para a existência. E a ideia de que tomar antidepressivo é o caminho que as pessoas fracas percorrem para fugir da realidade é tão difundida, que eu demorei a confrontá-la. O entendimento da depressão como doença veio depois de muita angústia. Mas hoje eu sou capaz de reconhecer que um dos aspectos mais bonitos e enriquecedores na jornada de conhecimento e aceitação de um problema, é que ele chega, muitas vezes, pela generosidade de pessoas que viveram ou vivem uma mesma situação e que resolvem compartilhar suas histórias a fim de ajudar o outro a atravessá-la. O meu pai, quando recebeu o diagnóstico de uma doença renal crônica, só passou a lidar bem com as sessões de hemodiálise depois que começou a conviver com pessoas que também faziam o tratamento, e que enfrentavam as mesmas restrições e complicações médicas que ele. E quando descobriu que o amor e os cuidados à sua volta se sobrepunham à dor e à sua nova condição. O amor, e só o amor, é o que faz tudo valer a pena. Como disse a Hannah Gadsby: “Sabem por que temos os girassóis? Não é porque Vincent van Gogh sofreu. É porque Vincent van Gogh tinha um irmão que o amava. Durante toda a sua dor, ele tinha alguém que o ligava ao mundo. E esse é o foco da história que precisamos. Conexão.”

Postman’s Park

A entrada do jardim Postman’s Park, que fica próxima à Catedral St. Paul’s, em Londres, é bastante tímida e mal nos convida a entrar. O espaço é pequeno e as árvores e flores são bem escassas. Alguns bancos de madeira, o canto dos pássaros e o pouco público presente contribuem para a criação de um cenário melancólico. Mas esse jardim modesto, que luta pela sobrevivência entre o concreto da região, abriga um tesouro. É em uma de suas paredes que está uma das mais lindas homenagens já prestadas aos heróis da vida real. O “Memorial to Heroic Self Sacrifice” dá uma nova vida àqueles que a perderam enquanto tentavam salvar outras. Em placas de cerâmica coloridas, os nomes e os gestos heróicos desses personagens anônimos foram registrados e deixados para a posteridade como exemplos de altruísmo e nobreza. E quis o destino e o cineasta americano Mike Nichols que uma dessas pessoas recebesse uma reverência ainda maior. Alice Ayres, a jovem de 25 anos que morreu no incêndio do qual salvou seus três sobrinhos, foi o pseudônimo adotado pela personagem da atriz Natalie Portman no inesquecível, instigante e premiado filme, “Closer”. Às vezes, eu me pego pensando nas duas Alices. Na heroína da vida real, que colocou a própria vida em risco para salvar três crianças, e na heroína da ficção, que salvou a si mesma quando escolheu deixar para trás um amor conturbado e não correspondido. A cena final, na qual ela caminha confiante e decidida em meio à multidão, é muito inspiradora. E nos enche de coragem, assim como as pessoas extraordinárias aqui homenageadas

O monstro do lago Ness

Na viagem de Glasgow a Inverness, na Escócia, as estradas cortam as terras altas, ou Highlands, e fazem um convite à contemplação de montanhas, vales e lagos. As paisagens são tão marcantes e singulares que frequentemente são usadas em grandes produções cinematográficas. É também nessa região montanhosa que fica o famoso Lago Ness. Famoso na verdade pelo Nessie, o seu tímido e recluso habitante. Há cerca de mil e quinhentos anos sua lenda fascina a humanidade. Uma criatura gigantesca e assustadora que vive no mais fundo lago da Escócia, e submerge seus 226 metros de profundidade com aqueles que se atrevem a mergulhar nas suas perigosas águas. Embora os pesquisadores jamais tenham encontrado qualquer vestígio seu, eu gosto de pensar no Nessie como o guardião desse lugar. E acredito que ele não passaria sua imortalidade escondido nas profundezas escuras do lago se pudesse confiar nos seres humanos.