José Saramago

Sentada à uma das mesas do Café Havanna, espero meu expresso. Ele chega com um acompanhamento que eu adoro. Um coraçãozinho de chocolate recheado com doce de leite. Enquanto abro sua embalagem, começo a pensar no escritor português José Saramago. A exposição dele no Farol Santander não me sai da cabeça. Que pessoa interessante ele era. Um homem consciente da realidade de seu tempo. Fiel aos seus valores e crenças e corajoso por afirmá-las com convicção e acidez num mundo tão intolerante. Ateu e comunista, Saramago foi também muito odiado e perseguido. Ainda assim, munido de uma arma poderosa e transformadora sobre a qual tinha total domínio, a palavra, jamais deixou de combater injustiças e questionar as ambiguidades existentes entre os discursos e as práticas religiosas. Comprometido com causas sociais e ciente de sua influência, perguntava-se sempre se o que estava prestes a escrever teria alguma relevância. E o deixava de fazer caso respondesse negativamente ao seu próprio questionamento. Escreveu trinta e oito livros tendo esse princípio a guia-lo. Romances, crônicas, poesias, peças teatrais, diários e memórias. De origem pobre podia não ter escrito nenhum. As dificuldades financeiras da família o obrigaram a desistir dos estudos que o levariam à universidade. Aos vinte e poucos anos trabalhava como serralheiro mecânico, profissão na qual se formou e que sustentava sua esposa e filha. Apaixonado pelo mundo das palavras, passava suas horas de lazer na biblioteca, e assegurava que foi o seu vibrante interesse pela leitura que abriu as portas para novas perspectivas e oportunidades, que mais tarde transformariam sua vida. Certamente, enquanto fazia suas primeiras incursões entre estantes repletas de títulos e autores atemporais, ele não imaginava em que proporção as letras e o conhecimento dariam a ele a chance de também estar entre aqueles, e de legar à humanidade um importante e inestimável acervo literário. Mas foram necessárias mais de três décadas até que conquistasse definitivamente a atenção de leitores e críticos. A consagração da carreira de escritor veio com a publicação de “Levantado do Chão”, em 1980 – o mesmo em que completou 58 anos, o que reforça sua imagem de homem obstinado. A leitura de “Ensaio sobre a cegueira” foi o meu primeiro contato com sua obra. Eu lembro que foi difícil chegar à última página daquele livro denso. Apesar da dificuldade, em momento algum eu cogitei abandona-lo. Pelo contrário, sem que eu me desse conta eu passei a fazer parte daquela história e daquele grupo de pessoas. E eu seria incapaz de fingir cegueira para escapar àquele horror e deixar à própria sorte toda aquela gente. Eu escolhi caminhar ao lado da mulher do médico até o fim. Ainda que eu não pudesse ajudá-la a sobreviver em meio ao caos criado por aqueles que não querem enxergar, eu podia tirar algumas lições de suas experiências, como a de não fechar os olhos diante das adversidades. Aliás, aprendizado é um dos maiores ganhos de quem resolve conhecer o trabalho de Saramago. Depois do mergulho dificilmente você volta o mesmo à superfície. Suas histórias ficam na cabeça e te forçam a refletir. Infelizmente, eu entrei em contato com sua obra um pouco tarde. Ele já era reconhecido mundialmente e um Nobel da Literatura quando eu assisti a uma de suas entrevistas pela primeira vez. Nesse momento, eu pude então descobrir e me identificar com sua visão de mundo. Cativada, corri para a livraria. Absorver seu estilo de escrita é complicado e exige concentração, mas recompensa quem insiste na aventura. Nos últimos anos, entretanto, eu estive distante de sua obra e esse é um erro que eu preciso reparar. “Viagem a Portugal”, que eu fiz questão de comprar durante minhas férias no país, ainda espera por mim na estante. A vontade de acabar com essa distância, motivada pela visita à exposição, dá mais sabor ao meu café, mas me entristece pensar que ele jamais escreverá uma nova história. José Saramago tinha tanto a dizer e inspirar. Era uma fonte inesgotável. Antes de deixar a cafeteria, leio no bloco de notas do meu celular a frase que eu anotei durante a visitação, e que estava registrada numa placa ao lado de um vaso de Oliveira que representava a árvore que recebeu as cinzas de seu corpo: “Quando eu morrer, se pusessem uma lápide no lugar onde ficarei, poderia ser algo assim: “Aqui jaz, indignado, fulano de tal”. Indignado, claro, por duas razões: a primeira, por já não estar vivo, o que é um motivo bastante forte para indignar-se; e a segunda, mais séria, indignado por ter entrado num mundo injusto e ter saído de um mundo injusto. Mas temos de continuar, de continuar andando, temos de continuar.”

De Banff a Jasper

Alguns guias e sites especializados em viagens e turismo classificam a estrada entre o Parque Nacional de Banff ao Parque Nacional de Jasper, em Alberta, no Canadá, como uma das mais lindas do mundo. E de fato, o percurso é espetacular. As montanhas rochosas nos acompanham durante todo o trajeto e temos a impressão de que elas nos observam, enquanto nós as observamos de volta, completamente extasiadas. São montanhas altas de formatos ondulados e pontiagudos. Algumas formam paredões e outras têm seus picos cobertos por neve, como se a natureza as confeitassem com açúcar apenas para deixá-las ainda mais atrativas. A todo instante surgem glaciares e lagos verde-esmeralda emoldurados por pinheiros. As águas do degelo formam riachos que contornam as pedras e seguem seu curso ou percorrem fissuras nas montanhas e se transformam em delicadas cachoeiras. Eventualmente, um arco-íris surge no horizonte e nos lembra que o segredo de sua magia está na beleza de seus traços e cores. É tanto encanto e inspiração que é impossível cochilar durante a viagem. O motorista faz algumas paradas estratégicas em pontos de contemplação, e quando a paisagem se descortina você é quase capaz de acreditar que está tocando o céu.

Cu Chi Tunnels

A visita ao memorial de guerra Cu Chi Tunnels, localizado no Distrito de Cuchi, na Cidade de Ho Chi Minh, provocou em mim sentimentos conflitantes. Conhecer o imenso sistema de túneis e também as estratégias, armas e armadilhas desenvolvidas pelos guerrilheiros comunistas do antigo Vietnã do Sul, os vietcongues, que lutaram ao lado do Vietnã do Norte contra a coalizão formada pelo governo do Sul e os Estados Unidos, é uma experiência interessante. E bizarra ao mesmo tempo. É estranho pensar que o território que esteve por catorze anos sob intenso derramamento de sangue seja hoje uma atração turística que desperta mais entretenimento do que resgate histórico. Durante a visitação eu aprendo um pouco mais sobre a guerra, assisto às demonstrações de uso das engenhosas armadilhas e descubro como funcionava a complexa e claustrofóbica malha de túneis, que era na verdade o principal trunfo dos vietcongues. Eram nesses túneis, estreitos e escuros, que funcionavam quartéis-generais, hospitais, redes de comunicação, alojamentos e depósitos de armas e mantimentos. E de onde os guerrilheiros conseguiam entrar e sair sorrateiramente e assim surpreender e abater seus inimigos. Os buracos no chão revelam que foram executados milimetricamente para que os soldados norte-americanos, mais corpulentos, não pudessem passar. Nesse momento, eu entendo a importância da perspicácia e da criatividade para combater em desvantagem. Ainda assim, o clima descontraído do ambiente é levemente desagradável. Chega a minha vez de entrar num dos túneis e, assim como os demais visitantes, faço graça para a câmera fotográfica. E nada disso conversa com o passado violento desse lugar. Quando então, ao final do percurso, eu encontro uma lojinha de souvenirs, no autêntico american way of life, eu só consigo pensar numa coisa: cadê a porra da saída?

A praia Maya Bay

Uma noite de sono ao relento. Sem banho quente e toalhas macias. Sem colchão e travesseiros confortáveis. Sem roupa de cama limpa. Sem ar condicionado e sem wi-fi. Em vez disso, chão de areia, colchonete, saco de dormir e muito repelente. Depois do deslocamento de Chiang Mai, no norte da Tailândia, para Phuket, no sul, e de Phuket para Koh Phi Phi Don foi assim que nos recuperamos de um dia cansativo. Uma troca razoável para assistir ao nascer do dia na praia de Maya Bay, considerada uma das mais lindas da Tailândia e popularizada pelo filme “The Beach”, com o ator Leonardo Di Caprio. “Maya Bay Sleep Aboard” é o nome da embarcação que nos leva às areias brancas e ao mar verde-esmeralda da famosa praia. A ideia do passeio é desfrutar de sua paisagem antes que ela seja encoberta pelas centenas de turistas que a visitam. E então, quando o dia nasce e a praia está ali, diante de seus olhos incrédulos, deserta e ainda mais paradisíaca, só o que você consegue fazer é silenciar os pensamentos e contemplar sua beleza. E esse é o grande barato dessa aventura.

O que importa não são coisas

Em alguns meses ele será o meu novo lar. Agora, o apartamento sequer se parece com uma casa. Chão, cheiro e cor de cimento. É a tal casa engraçada. Sem penico. Sem pipi. Os vasos sanitários estão no que um dia será o meu quarto de vestir. Marcel Duchamp. Dadaísmo. Desculpe-me o transtorno, estou em obras. As paredes expõem suas vísceras. Adriana Varejão. Inhotim. Contemporâneo. Sem cores. Sem história. Sem vida. Está vazio. E cheio de possibilidades. Promessas de refúgio. Lugar que acolhe e recarrega. Renova. Atrai amigos. Atrai ondas boas. A página em branco à espera da inspiração. Do escritor, do pintor, do artista, do morador. Portas de correr nos quartos para otimizar espaços. Portas de correr nos armários para ganhar espaço. Fotos e reprodução de pinturas em paredes e prateleiras. Souvenirs das viagens aqui e ali. Um coração luminoso cafona que eu acho lindo. A porta ícone daquele seriado que eu ainda gosto. Se o meu irmão estivesse aqui, ele me ajudaria com a decoração. Ele me ajudaria com tudo. Ele estaria orgulhoso de mim. Ele está. Eu consigo senti-lo. O amor rompe as barreiras determinadas pelo tempo. Com amor eu receberei minha família e meus amigos. Para as sobrinhas, sorvete e chocolate. Para os amigos, vinho e  cerveja. Livros, canecas e miniaturas de café, souvenirs e bonecos. Apego. Antes que a mudança aconteça eu preciso destralhar. Roupas, calçados e quinquilharias. Desapego. Doação. Fazer a energia expandir. Minimalismo. Menos é mais. Menos coisas para mais tempo. Mais tempo para o que importa. O que importa não são coisas. O que importa já tem morada bonita. Em mim.

Um tesouro chamado Jalapão

O Jalapão, que fica no Estado do Tocantins, é um destino remoto e de difícil acesso. Para conhecê-lo é imprescindível disposição e certo espírito de aventura. A viagem é longa e parte dela, cerca de duas horas e meia, é feita num caminhão 4×4 que percorre a estrada de terra bastante acidentada à 30km/h e nos joga de um lado ao outro e de lá para cá num chacoalhar sem fim. Um comprimido de dramin na minha mochila teria sido muito útil. A chegada ao acampamento Korubo, montado à beira de um trecho do rio Novo, é celebrada, mas provoca um certo estranhamento inicial. Um estranhamento que se desfaz assim que conhecemos a barraca suíte, ampla e confortável, que será nosso abrigo durante a estadia de cinco dias e quatro noites. À base de aquecimento solar, os chuveiros ficam numa espécie de galpão coletivo com boxes individuais e, evidentemente, com entradas distintas para mulheres e homens. As refeições (maravilhosas) acontecem num segundo recinto e todos se sentam à uma única e grande mesa, como a da Santa Ceia. No exclusivo grupo de turistas existem os falastrões e os reservados, mas, em geral, as pessoas são educadas e divertidas. Os atrativos são afastados uns dos outros, mas todos os cenários compensam os longos deslocamentos no 4×4. Em meio à beleza exuberante do Cerrado fazemos canoagem nas águas cristalinas do Rio Novo e trilha na Serra do Espírito Santo, nos banhamos em cachoeiras e no Fervedouro (poço onde ocorre o fenômeno da ressurgência – água que brota num solo de areia fininha que ao ser revolvida nos impede de afundar), conhecemos o artesanato local feito com capim dourado, do qual são dependentes economicamente alguns de seus habitantes, e assistimos a pores do sol espetaculares. O caminho de volta para Ponte Alta, onde o 4×4 é substituído pelo carro que nos leva até Palmas, é igualmente demorado e tortuoso. Ainda bem. Eu li numa revista que existe um projeto de pavimentação da estrada para aumentar o desenvolvimento turístico da região, o que seria um desastre para suas riquezas naturais. Hoje, é um alívio pensar que é justamente a dificuldade de acesso que mantém protegido esse lindo e inestimável tesouro chamado Jalapão. 

Naquela esquina

Ela não percebeu que eu a observava, mas sua presença despertou meu interesse assim que eu a descobri sentada sozinha naquele banco. Quando o táxi parou no sinal vermelho entre as avenidas Roberto Marinho e Engenheiro Luís Carlos Berrini, eu olhei para a minha direita e notei que aquela garotinha olhava fixamente para o alto de uma árvore cujos galhos balançavam fortemente com o vento. Talvez um pássaro ou o farfalhar das folhas tivesse captado sua atenção. De qualquer modo, eu fiquei pensando numa possível razão para que ela estivesse sozinha em frente àquele Conjunto Habitacional e naquele estado contemplativo. Era uma cena melancólica e ela me parecia tão jovem, talvez tivesse uns cinco anos. De camiseta rosa, calças jeans e um tênis branco, ela podia estar à espera de alguém. Talvez da mãe que terminaria de se arrumar e então desceria para que elas fizessem um passeio juntas. Talvez tivesse combinado de encontrar uma amiguinha. Ou talvez tivesse fugido de uma discussão entre seus pais e buscado refúgio na solidão. Quando esse último pensamento passou pela minha cabeça eu me senti triste e quis logo expulsá-lo. O semáforo abriu, mas eu senti tanta vontade de permanecer ali. Na verdade, eu queria sair do carro, caminhar em sua direção e me sentar ao seu lado. Mas só o que eu pude fazer foi desejar a ela uma vida plena e feliz.

Gratidão

“Algumas semanas atrás, no campo, longe das luzes da cidade, vi o céu inteiro “polvilhado de estrelas”; eu imaginava que só seria possível ver um céu assim em platôs altos e áridos como o de Atacama, no Chile (onde ficam alguns dos telescópios mais potentes do mundo). Foi esse esplendor celeste que de súbito me fez perceber o pouco tempo, a curta vida que me resta. Minha ideia de beleza celeste, de eternidade, ficou inseparavelmente mesclada a uma ideia de transitoriedade – e de morte. Falei para os meus amigos Kate e Allen: “Gostaria de ver de novo um céu como esse quando estiver morrendo”. “Levaremos você para fora”, eles disseram. Encontro consolo, desde que escrevi em fevereiro sobre meu câncer metastático, nas centenas de cartas que recebo, nas expressões de amor e apreço e no sentimento de que (apesar de tudo) eu talvez tenha tido uma vida boa e útil. Continuo a me sentir muito feliz e grato por tudo isso, mas nada mais me afeta como o céu repleto de estrelas daquela noite.”

As preces de Stourhead

Depois de caminhar longamente pelo Stourhead Garden, sob a manhã fria, chuvosa e cinzenta, chego a charmosa St. Peter’s Church. A igreja medieval erguida no século treze, e restaurada nos anos de 1722 e 1848, convida a entrar àqueles que passam por Stourhead e que desejam observar sua construção e os imponentes túmulos e esculturas que homenageiam as pessoas que fizeram a história do lugar. Contudo, assim que entro sou subitamente atraída pela simplicidade de uma arvorezinha posicionada num canto discreto, distraindo-me completamente das riquezas artísticas e históricas que me trouxeram aqui. Caminho até a árvore e então começo a ler, uma a uma, as preces escritas em pequenos cartões que foram amarrados aos seus frágeis troncos. Comovida com o teor das mensagens, esqueço-me do tempo. E então, enquanto fotografo algumas delas para que a poesia do momento não escape de mim, descubro que é hora de encerrar a visita. É quando escuto, ao longe, o que uma das minhas professoras do segundo ano fundamental disse à minha mãe, em tom de censura, durante uma reunião de pais e mestres. “A Juliana é uma criança muito dispersa. Se um lápis cai no chão, ela deixa de prestar atenção à aula para observá-lo”. Uma repreensão que só deixou de me causar tristeza e insegurança quando eu aprendi a me conhecer e a me aceitar, e a pensar que a minha desatenção talvez seja um estado atento em mim. Antes de sair, resolvo deixar uma prece, mas não encontro nenhum cartãozinho. Então escrevo em pensamento: “que todos eles recebam o que precisam”. Saio aquecida de volta ao clima frio do dia, ainda pensando na fé e esperança que transbordam daqueles que amam. Preces para a recuperação de Charles. Para que a mãe e o cachorro melhorem. Para aqueles que estão sofrendo de perda auditiva. Para Jéssica, que está lutando contra o câncer. Para que uma família se mantenha segura e feliz. Preces para pessoas amadas que se foram para sempre… Em vez de me transportarem para um período longínquo, a antiga construção em blocos de pedras e as sepulturas daqueles que há muito deixaram de existir me encorajam a viver no presente. É como se um lápis caísse no chão apenas para chamar minha atenção às coisas que verdadeiramente me inspiram e me tocam. “Ame os seus. Cuide dos seus. Reze pelos seus, até que um dia você também já não possa fazê-lo”, é o que digo para mim mesma. Hoje eu imagino que se reencontrasse a minha antiga professora, eu não diria com rancor que talvez suas aulas fossem pouco atrativas para captar minha atenção. Na verdade, eu não diria nada. Está tudo bem.

Nas locações de Orgulho e Preconceito

A CASA DA FAMÍLIA BENNET

Groombridge Place, próxima à cidade de Tunbridge Wells, Kent, na Inglaterra. A casa remonta ao ano de 1239 e foi usada pelo diretor Joe Wright para representar Longbourn, a modesta moradia da família Bennet. Conhecê-la foi uma experiência tão emocionante que ainda hoje eu consigo ouvir o som dos meus passos sobre a estradinha de cascalho que dá acesso à sua entrada principal.

NETHERFIELD PARK E OS BINGLEY

“Senhor Bennet, ouviu dizer que Netherfield foi finalmente alugada”? Basildon Park, em Reading, é a mansão em estilo Georgiano do século XIX que emprestou sua beleza à Netherfield, a residência do Sr. Bingley. Além da fachada, a produção do filme fez de cenário alguns de seus cômodos, como descobrimos enquanto visitamos seu interior. A sala Octogonal, na qual Darcy escreve uma carta para a irmã Georgiana, recebeu paredes falsas para cobrir um vermelho inapropriado ao ambiente. E a sala de jantar, transformada na sala de café da manhã onde Bingley, sua irmã Caroline e seu amigo Darcy recebem uma enlameada Elizabeth. “Pelos céus. Viu o estado dela? Mergulhada em lama. É incrivelmente medieval”. Essa mesma sala dá lugar ao baile “de tirar o fôlego”, no qual Darcy e Lizzy finalmente se aproximam, depois que ele a convida para uma dança. Aliás, essa é para mim uma das melhores cenas. No momento em que o Sr. Darcy diz à Lizzy que espera “esclarecer as coisas melhor no futuro”, todos aqueles que os cercam desaparecem magicamente e vemos apenas os dois no salão, como se nada mais existisse, além da ideia de que haverá um futuro em comum. É uma cena muito romântica.

PERMBERLY, A MANSÃO DO SR. DARCY

Depois de uma caminhada de quarenta minutos por uma estradinha de terra batida cercada de árvores que formavam uma sombra agradável sob o sol da manhã, chego a Pemberly. Quer dizer, chego a Chatsworth House, a locação mais imponente e elegante de “Orgulho e Preconceito”, bem à altura do Sr. Darcy, seu morador fictício. O lugar está cheio de pessoas. Umas caminham pelos jardins. Outras fazem piquenique. Crianças correm em círculos. E senhoras conversam animadamente enquanto tomam café às mesas externas da cafeteria. A propriedade, considerada o destino rural favorito dos ingleses, fica no condado de Derbyshire e é famosa pelos lindos jardins. Joe Wright, o diretor do filme, não a escolheu aleatoriamente para recriar Pemberly. Acredita-se que a própria Jane Austen a tenha imaginado para seu romance após uma rápida e inspiradora visita a Chesterfield e Chatsworth. A incursão ao interior do Palácio é igualmente impactante, mas nenhum cômodo supera a sala das esculturas, um dos pontos altos da visita e para a qual eu reservava maior expectativa. “Meu Deus, Meu Deus”, diz a tia de Lizzy enquanto entra no suntuoso ambiente. E essa é exatamente a minha reação enquanto refaço seus passos.

STOURHEAD GARDEN E O PRIMEIRO PEDIDO DE CASAMENTO

No livro, o primeiro pedido de casamento feito pelo Sr. Darcy à Elizabeth acontece dentro de um presbitério. No filme, o lugar escolhido pelo diretor Joe Wright para o emocionante diálogo travado entre os dois foi o Stourhead Garden, no condado de Wiltshire, em Warminster, há umas duas horas de Londres. O jardim é um dos mais famosos da Inglaterra e certamente um dos mais lindos e românticos que eu conheci. Templos, cascatas, ruínas do Império Romano, estátuas de figuras mitológicas, pequenas edificações e um trabalho paisagístico extraordinário compõem a paisagem. O diretor Wright foi muito primoroso na escolha das locações. Os cenários são de tirar o fôlego.

PONTE PALLADIANA

Depois de ouvir algo terrível sobre o Sr. Darcy, Lizzy corre desesperadamente para longe dele, sob uma forte tempestade. Ela atravessa a ponte Palladiana e num instante chega ao Templo de Apolo, onde ele a surpreende. Eu, enquanto visito Stourhead, descubro que ponte e templo não ficam próximos um do outro como a edição do filme nos faz acreditar. Então, refazer o trajeto da protagonista demanda um pouco mais de tempo e um maior esforço físico, devidamente recompensados pelas lindas paisagens.

TEMPLO DE APOLO

O lugar escolhido pelo diretor Wright para a cena do primeiro pedido de casamento:

– Senhorita Elizabeth, lutei em vão e não consigo mais aguentar. Estes meses têm sido um tormento. Vim para Rosings com o único objetivo de vê-la. Lutei contra o meu bom senso, as expectativas de minha família, a inferioridade de seu nascimento, a minha posição. Estou disposto a por todas essas circunstâncias de lado. E peço-lhe para acabar com a minha agonia.

– Eu não entendo.

– Eu te amo. Muito ardentemente. Por favor, dê-me a honra de aceitar a minha mão.