Quando o aroma do café da manhã começava a exalar na minha casa da infância, eu sabia que um novo dia estava prestes a começar. Aquele era o seu primeiro aceno. Um convite afetuoso para sair da cama. Às vezes, eu chegava na cozinha e os meus pais já estavam à mesa, servindo suas xícaras. Em outras ocasiões, eu podia vê-los à pia e ao fogão, ainda envolvidos na sua preparação e na mágica que acontece quando a água quente passa pelo pó marrom no filtro de papel. E acho que foi assim que eu me apaixonei pelo café. Primeiro, ainda criança, de uma maneira platônica, atraída pelo seu perfume, mas desautorizada a bebê-lo. E então, com uma idade que eu não sei precisar, servindo a minha própria xícara e sentindo-me importante por finalmente fazer parte do mundo dos adultos. Um universo que aos poucos me mostrou que nunca se tratou apenas da bebida, mas dos momentos que ela traz consigo. O ritual que envolve seu preparo e seu aroma e sabor traduzidos na rotina acolhedora de nós cinco sentados à mesa todas as manhãs. Meus pais, meus irmãos e eu vívidos e unidos como nos comerciais de margarina. Afeto também compartilhado no café da tarde com bolinho de chuva polvilhado com açúcar e canela na casa da vó Rosa. Ou acompanhado de pão caseiro quentinho com manteiga Aviação na casa da avó Adelaide. Durante a faculdade era ele o parceiro perfeito para as horas solitárias de estudos ou para a troca de ideias com os amigos. E o melhor argumento para encontrar alguém: “Vamos tomar um café”? No trabalho, o cafezinho após o almoço era uma tradição que seguíamos religiosamente. E na companhia dos colegas fazíamos desse momento uma festa. A pausa perfeita para voltarmos ao escritório revigorados. Foi nesse período, inclusive, que eu desenvolvi um profundo amor pelo ambiente das cafeterias. Embora habitualmente agitadas e barulhentas – a música da máquina de expresso em constante funcionamento, da vaporização do leite, do tilintar de xícaras e pires de porcelana chocando-se uns contra os outros e do falatório dos clientes, eu descobri que esse é um dos lugares onde eu mais encontro calma e silêncio. E concentração para ler ou anotar meus pensamentos. “Ju, sabia que eu aprendi a gostar de café com você?”, revelou meu irmão, certa vez, para minha surpresa e felicidade. Pelas ruas do meu bairro, da minha cidade ou nos muitos caminhos que eu percorro durante as viagens, é sempre uma alegria encontrar uma cafeteria aconchegante para transformar em poesia um momento do dia. Gertrude Stein, escritora e poetisa americana, escreveu: “Café é muito mais do que apenas uma bebida; é um acontecimento… como um evento, um lugar para estar, mas não como uma localização, mas algum lugar dentro de si mesmo. Ele te dá tempo, mas não exatamente horas e minutos, mas a chance para ser, para ser você mesma, e então tomar uma segunda xícara”. Agora, sentada à uma das mesas de uma das cafeterias mais antigas de Paris, o Café de Flore, no bairro Saint-Germain-des-Prés, uma das minhas preferidas no mundo, embora essa seja apenas a minha segunda vez aqui, eu observo as pessoas e penso em como essas pausas para o café enriqueceram e continuam a enriquecer os meus dias. E do nada, imagino como seria encontrar aqui a escritora Patti Smith, uma das minhas favoritas. Ela sempre vem ao Café de Flore quando está em Paris e, normalmente, registra essas visitas no Instagram: “Este é um café da manhã no Café de Flore. Ainda acordando depois de uma noite de sonhos estranhos e abstratos. Mas aqui tudo é familiar. Concreto. O café, um copinho de água, um pedaço de pão e meu caderno e caneta. O que vem a seguir depende de mim”, postou certa vez. E então eu percebo que se de fato ela estivesse sentada num dos sofás vermelhos do salão, ou à uma das mesinhas redondas da área externa, eu não teria coragem de aborda-la com o pedido de uma foto ou para lhe dizer o quanto seus livros são casas para mim. Eu não ousaria interromper o seu fluxo criativo ou a pausa consigo mesma, pois eu sei que isso quebraria o encanto do momento. Eu simplesmente a observaria de longe, o rosto sério e os olhos sobre o caderno no qual ela registra seus pensamentos e ideias, banhando-se no mesmo elixir que banhou escritores, artistas e filósofos, como Albert Camus, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, nesse mesmo espaço, muitas décadas antes dela. Eu li, certa vez, que muitos deles buscavam trabalhar no ambiente das cafeterias para fugir de seus apartamentos espartanos e pouco aquecidos. Ali, eles podiam mergulhar na introspecção ou socializar em debates e discussões. E contar com a generosidade dos proprietários, que os deixavam ocupar suas mesas apesar do pouco consumo, como se soubessem que esse gesto viria a trazer frutos no futuro, como uma espécie de investimento a longo prazo. Inclusive, é possível perceber que nesse momento grande parte dos clientes é formada por turistas. Alguns, eu sei, buscam absorver uma atmosfera intelectual como se os frequentadores ilustres do passado tivessem deixado seus conhecimentos numa névoa sobrenatural. Outros, querem apenas riscar de sua lista um lugar que transformou-se em ponto turístico dada à sua fama histórica e cultural. E eu, inspirada principalmente pelos inúmeros registros da Patti Smith no Café de Flore, alegro-me em tomar o meu café enquanto contemplo o lugar e tento me transportar para uma época longínqua. Os clientes mudaram. Os temas das conversas são outros. É possível que a decoração tenha sofrido alguns ajustes. E acredito que até o sabor do café já não seja mais o mesmo, mas o prazer de estar aqui une as gerações. E é esse clima que me leva a querer conhecer cafeterias históricas mundo afora. Eu sei que um dia todos esses momentos deixarão de existir, como a rotina de nós cinco sentados à mesa todas as manhãs, mas hoje… Hoje eu seguro fortemente a xícara quente por entre as minhas mãos e deixo-me seduzir pelo seu perfume, sabor e poesia.
O relógio despertou às 6 horas, conforme programamos na noite anterior, e ainda com sono e presas às camas quentinhas, minha irmã e eu rimos da nossa ideia de como curtir nossas férias no Chile. Não havia tempo a perder. A van passaria em uma hora para nos pegar e vestir-se como uma cebola levaria tempo. Também precisávamos de um leve desayuno. Rapidamente nos colocamos de pé e começamos a vestir nossas camadas. Blusa e calça segunda pele, seguidas por blusa e calça fleece. Meias térmicas e botas de trekking. O casacão pesado foi deixado para o fim. Àquela altura, dentro do quarto do hotel, eu já estava morrendo de calor. Na mochila, um litro de água em uma garrafa já pesada (que horas depois eu sentiria vontade de deixar pelo caminho), protetor labial, protetor solar, óculos de sol, cachecol, gorro, luvas, boné e uma embalagem grande de lenços umedecidos (mais peso morto). Nós havíamos visitado o lado argentino da Patagônia e sabíamos que seu clima era bastante imprevisível. Maluco mesmo. Mas era mesmo necessário vestir, para depois ter de carregar, o pesado e desajeitado casaco corta-vento? Bom, mas era isso ou passar frio, e passar frio não era uma opção. Quando a nossa van finalmente chegou ao Centro de Bienvenida na Reserva Cerro Paine, dentro do Parque Nacional Torres Del Paine, depois de uma viagem de quase duas horas a partir do nosso hotel em Puerto Natales, eu pensei: “Bora, que eu tô pronta”. Bem, na verdade, eu sabia que não estava totalmente pronta. Faltava ainda fazer um xixizinho e também receber os bastões de caminhada pelas mãos da Ana, a nossa guia. Aliás, eu não sei dizer o que foi mais imprescindível nessa trilha, a nossa guia ou os bastões que ela nos entregou e que nos impulsionavam nas subidas e nos ajudavam a descer cautelosamente. E foram tantas subidas e descidas que eu tenho certeza que a experiência teria sido bem mais traumática se eles não me acompanhassem. Depois que o nosso pequeno grupo, formado por cinco pessoas, incluindo minha irmã e eu, recebeu as instruções sobre o percurso e teve seus bastões ajustados para a altura de cada um, nós pudemos seguir nosso rumo. Aquele era o primeiro dia das férias, que nós havíamos dividido entre a Patagônia e o Deserto do Atacama. E o hiking até a base das Torres era um dos pontos altos da viagem, justamente porquê nós sabíamos que não seria fácil. E também porquê Torres del Paine era uma antiga conhecida que nós desejávamos rever. Anos atrás nós havíamos visto, à distância, toda sua imponência depois de um tour bate e volta a partir de El Calafate. A viagem corrida de um dia, embora tenha sido extremamente cansativa, nos deixou com vontade de voltar para contemplar mais de perto, e demoradamente, aquela formação rochosa espetacular, que destaca-se do Maciço Paine, e cuja formação data de aproximadamente doze milhões de anos. O passeio começou de forma tranquila. Uma estradinha bem marcada sob terreno plano dava segurança e ritmo aos meus passos. Mas essa ainda não era a trilha, eu descobriria depois. Era só a trilha que nos levaria até a trilha oficial. Quando o percurso realmente começou, ele mostrou rapidamente que não estava ali para amadores. Uma subida bastante íngreme e interminável marcava a primeira etapa da jornada. Em pouco tempo, o calor provocado pelo esforço me obrigou a tirar o casacão corta-vento e amarra-lo na mochila que eu levava nas costas. Nas mãos, iam os bastões. Logo de cara, eles se tornaram um prolongamento dos meus braços. Como se fôssemos um só corpo. Quando vencemos a subida e o terreno tornou-se plano novamente, eu senti o ar puro nos pulmões e pude, então, observar melhor a paisagem ao meu redor. Eu estava ofegante e cansada, mas grata por estar ali, em meio à natureza, novamente. O sol apareceu cedinho e tornou mais vívidas as cores contrastantes da vegetação, do gelo sobre as montanhas e dos riachos formados pelas águas de degelo, que nos faziam companhia em alguns trechos. Delicados, com seus tons de azul e verde esmeralda, eles destoavam do ambiente intimidador. Infelizmente, não tínhamos muito tempo para fotografias, ainda que passássemos por muitos pontos fotogênicos. As pernas precisavam se manter em movimento. Para segurança de todos, existe um horário limite para que os visitantes cheguem à base e não seríamos nós a ver a passagem bloqueada pelo guarda-parque. Muitos outros turistas faziam a trilha e mantinham um ritmo constante, o que conferia uma atmosfera acolhedora à paisagem inóspita. E era uma felicidade caminhar ao lado deles. Nós vínhamos de todos os lugares do mundo e tínhamos histórias diferentes, mas estávamos conectados por um propósito em comum. Um interesse em comum. Aqueles que caminhavam em sentido oposto ao nosso traziam um semblante radiante e nos deixavam mensagens de estímulo. Eles diziam, num misto de alegria e orgulho: “é mesmo lindo” e “valerá a pena”. Eu via todos aqueles rostos amigáveis e me perguntava se eles tinham perdido alguém para a Covid-19. E, ao mesmo tempo, surpreendia-me com o meu próprio questionamento. Por que esse pensamento no primeiro dia das férias? Por que era tudo muito recente? Ou talvez devido ao trauma. Foram quase quinze milhões de pessoas mortas no mundo todo, segundo a Organização Mundial da Saúde. Como superar isso? Não são só números. Talvez o fato de já ter perdido pessoas amadas me aproxime da dor de quem perde o pai, um irmão, a mãe, uma tia, um amigo. Eu estive nesse lugar. Eu sei como é, mas, no fundo, eu acredito que toda pessoa que ama é capaz de se solidarizar com o sofrimento de quem vive o luto. E, certamente, algumas dessas pessoas na trilha perderam alguém para a covid. É difícil encontrar quem não tenha perdido. A vida que ninguém vê, de repente, escancarada e noticiada. Eu passava por eles e os imaginava presos em suas casas, perguntando-se quando seriam livres novamente. Não só livres de corpo e espírito, mas, principalmente, de pensamento. Como aqueles dias de pandemia foram difíceis. Quando tempo faz? Quando tudo isso começou? Dezembro de 2019? Então, faz pouco mais de dois anos. Quanta tristeza e quanta ansiedade nós sentimos. E quando a gente ia imaginar que viveria uma pandemia, nos dias atuais? Pandemia era algo do passado e também dos filmes e livros. Os sorrisos cobertos por máscaras. O silêncio e o vazio nas escolas. Nos escritórios. Nos bares. Restaurantes. Livrarias. Parques. Ruas. Todos os lugares de convívio, vazios. Silêncio e vazio destruindo e transformando pessoas e empregos. Quantos perderam seus trabalhos. Quanta gente precisou se reinventar. E o Governo pedindo para que ficássemos em casa, que era a melhor maneira de evitar a contaminação do vírus, cuja forma de transmissão era ainda desconhecida. E então, apesar da ansiedade e do medo de ficar doente ou de transmitir o vírus, era preciso agradecer. Agradecer pelo teto, pelo abrigo seguro, e também pelo trabalho, que nos permitia a realização de tarefas à distância. Agradecer pela possibilidade de proteger a si mesmo e aqueles que não podiam ficar em casa, como os funcionários de farmácias e supermercados, considerados serviços essenciais. E também, ou principalmente, os profissionais da saúde. Médicas e médicos, enfermeiras e enfermeiros levados à exaustão na linha de frente da batalha contra a doença. Vidas perdidas e vidas salvas. E pensar que muitos deles tiveram de escolher, em algum momento, qual paciente teria direito a um respirador, já que os hospitais estavam lotados e não havia respiradores para todos. Quando esse pensamento passou pela minha cabeça, eu respirei fundo. Pensar nessa doença que afeta a capacidade de respirar, enquanto o trajeto exige tanto dos pulmões, emociona. E o que diriam as árvores, os riachos e as montanhas sobre o período em que as fronteiras estiveram fechadas e o povo local e os turistas foram proibidos de circular? Será que a natureza via esse distanciamento humano como forma de curar a si mesma dos males por eles provocados ou ela mesma sentia falta de gente e de sua maneira invasiva de reverencia-la? As imagens veiculadas pela imprensa durante o período de confinamento, que esvaziou os lugares, mostrava como as águas dos canais de Veneza tornaram-se cristalinas, já que não haviam embarcações para levantar sedimentos. Pássaros e outros animais passaram a ser vistos em locais não frequentados antes. E o céu ficou mais limpo, especialmente à noite, com a diminuição da poluição gerada pelo trânsito. E eu, o quanto eu desejei ter plantas dentro de casa. Como o verde me fez falta. Como era bom estar de novo perto da natureza. Depois de quase duas horas de caminhada, chegamos ao Refúgio Chileno. A parada sob a sombra fora um relâmpago. Tempo suficiente apenas para ir ao banheiro, beber água e comer um snack, rapidamente. Era preciso renovar as forças antes de retomar os passos e dar início à segunda etapa da trilha. O percurso agora era por dentro da floresta, onde o solo se tornara bastante irregular e repleto de aclives e declives. Nessa fase, era preciso prestar atenção à trilha a fim de evitar um acidente. Uma oportunidade para deixar de lado as divagações e esvaziar a mente. E os meus pensamentos passaram mesmo a habitar o momento presente e a me atormentar com a ideia de que eu não daria conta. As minhas pernas doíam e eu tinha medo de não conseguir. A guia percebeu meus sinais de cansaço e passou a me incentivar: ”Julyyyyyyy, vamos July. Nós podemos andar devagar, mas não podemos parar”. No entanto, ela não diminuía o ritmo. A floresta parecia não ter fim e eu observei que precisava mais das pernas do que dos pulmões. Quando chegamos, finalmente, à etapa final da trilha, eu não sabia se chorava ou ria (de nervoso). Havia uma subida muito íngrime e, de novo, interminável. As pessoas lá no alto pareciam miniaturas. Elas estavam longe, muito longe. E eu teria que subir por entre aquelas pedras e também encolher aos olhos dos que vinham abaixo. Nesse momento, eu juro que pensei em desistir. Que se fudesse o que eu já havia caminhado. Aquilo era insano. Ao mesmo tempo, eu havia chegado até ali. Desistir agora, tão perto de atingir o objetivo? Era frustrante. Eu parecia livre, mas estava aprisionada às limitações do meu corpo. Mas e se fosse uma limitação da minha cabeça? A minha mente dizendo que eu não era capaz? Eu, que já havia superado tantas coisas difíceis na vida, iria carregar essa frustração? Enquanto eu lutava comigo mesma, sob a ameaça de uma crise de pânico, a nossa guia aproximou-se de mim e perguntou: “Ju, você quer chegar? Se você me responder que ‘não’, então você pode nos esperar aqui, pois nós faremos esse mesmo trajeto na volta. Mas se você responder ‘sim’, que quer chegar, então eu vou ajudá-la e você vai chegar”. Eu confiei nela e respondi que sim, eu queria chegar. Ela então pegou minha mochila e colocou nas próprias costas. Pegou meu casaco desajeitado e enfiou na sua mochila. Ela me deixou leve e passou a caminhar ao meu lado. “Julyyyyy, vamos July”, dizia, de tempos em tempos. Eu cheguei. Eu cheguei aos pés das Torres e mal pude acreditar na imagem à minha frente. Um lago verde esmeralda e, ao fundo, os três dedos de Deus. Agora sim, eu podia não apenas sentar sobre uma das pedras e descansar, mas de fato contemplar aquela beleza extraordinária e única no mundo, reconhecida pela Unesco como Reserva da Biosfera, em 1978. O sol que tinha iluminado nosso caminho havia ido embora. O dia ficou repentinamente nublado e uma garoa fininha começou a cair, contudo, nada seria capaz de atrapalhar aquele momento. Quem conhece a imprevisibilidade da vida, aceita com o peito aberto a imprevisibilidade do clima. É como se não existisse tempo bom ou ruim, mas apenas o tempo. E talvez, no fim, seja tudo parte da mesma natureza. Eu saí da trilha completamente destruída. Enfraquecida. Foram vinte quilômetros percorridos. Quase nove horas de caminhada, entre ida e volta. As minhas botas pareciam de concreto e levantar os pés para dar um simples passo parecia um castigo. Eu fiquei para trás do grupo e entoava um mantra para seguir adiante: “a cada passo dado, mais eu me aproximo do hotel”. Eu não via a hora de chegar, arrancar aquelas botas, aquela roupa e ficar completamente imóvel. Eu não estava preparada para o desafio. Eu subestimei o percurso. Eu estava tão exausta que cheguei até a questionar meu amor pela natureza, como se fosse ela a culpada pelo meu estado lastimável. Mas então eu pensei no coronavírus e em todos os seus desdobramentos ruins. E pensei nas cientistas e nos cientistas que desenvolveram a vacina em tempo recorde, o que aos poucos estava nos devolvendo à normalidade. Pensei na rede de solidariedade formada para ajudar as pessoas afetadas pela pandemia. E pensei com carinho na nossa guia Ana, que me ajudou a chegar aonde eu queria estar. Eu visualizei os rostos amigáveis dos turistas que dividiam a trilha e deixavam mensagens de encorajamento. Nós havíamos voltado a sorrir e a mostrar esses sorrisos, agora que as máscaras já não eram necessárias. E então eu lembrei, tudo passa.
Era exatamente uma cena como essa que eu imaginava encontrar no Vietnã. Vendedoras de flores e frutas com suas bicicletas adaptadas e seus tradicionais e inconfundíveis chapéus cônicos. Uma imagem romântica e inspiradora. Uma poesia. Será que se eu falasse seu idioma e pudesse então abordá-la para lhe falar sobre a beleza que sua figura transmite, ela sorriria timidamente e concordaria comigo? O meu romantismo é o pão de cada dia dela. (Halong Bay, Província de Quang Ninh, Vietnã).
Assim que terminamos o café da manhã, fomos ao encontro do nosso guia. Ele então nos levou até às bicicletas, que já estavam preparadas para o nosso passeio pela cidade portuária de Hôi An, província de Danang, na costa central do Vietnã. Nosso grupo, formado por apenas três pessoas – nosso guia, minha irmã e eu, integrou-se facilmente ao tranquilo trânsito da cidade. No percurso, nós desviávamos das poças d’água formadas pela chuva da noite anterior e parávamos para fotografar os campos de arroz, tão bonitos e poéticos quanto imaginamos que seriam. Depois paramos na modesta casa de uma família de agricultores, pois uma das propostas do tour era vivenciarmos uma parte de sua rotina. Então, encostamos nossas bicicletas em frente à casa e recebemos do nosso anfitrião um sorriso generoso e também um avental e o tradicional chapéu de cone, o Nón Lá. Ele seguiu para a plantação de hortaliças e nós fomos atrás, atentas às suas demonstrações de como preparar a terra para o plantio. Na sequência, ele nos fez arregaçar as mangas e colocar as mãos na terra, a fim de plantarmos as nossas próprias mudas. Honestamente, eu estava com medo de que o idioma fosse uma barreira intransponível para a nossa comunicação e a gente ficasse desconfortável, mas a nossa interação, feita a partir de gestos, mostrou-se eficiente e nós conseguimos dar boas risadas. Embora tenha ficado aquela vontade enorme de falarmos a mesma língua para conversarmos por horas a fio. O nosso anfitrião, ainda que ligeiramente tímido, sabia como nos deixar à vontade. Acabado o “trabalho” na plantação, voltamos à casa e recebemos uma relaxante massagem nos pés, a foot massage, famosa e tradicional no Sudeste Asiático e uma atração à parte para os turistas. O almoço, aguardado com grande expectativa, não decepcionou. E foi como toda refeição vietnamita: um desfile de pratos e combinações interessantes. E para enobrecer ainda mais a experiência, com a nossa participação na cozinha. Primeiro, observando a nossa anfitriã e depois reproduzindo seus pratos. Uma omelete sem ovos, cuja base é farinha de arroz e açafrão para dar cor, recheada com camarão e carne de frango e transformada num wrap depois de ser enrolada com alface e pepino numa folha de papel de arroz. Uma salada de folhas verdes recém colhidas e talvez plantadas com a ajuda de outros visitantes. Trouxinhas de camarão, carne de porco e folhinhas de hortelã amarradas com cebolinha. E isso só para começar. No término da visita nós já estávamos tão familiarizadas com as pessoas e com o ambiente que nos acolheu com tanto carinho que nos despedimos com lágrimas nos olhos. Eu já não me lembro os seus nomes, mas ainda os vejo nitidamente na memória e sinto saudades. No final da tarde, devolvemos as bicicletas no hotel e batemos perna pela preservada Cidade Antiga, declarada Patrimônio Mundial da Humanidade, pela Unesco. O bairro, já tão encantador, fica ainda mais bonito à noite, quando as inúmeras lanternas coloridas estão acesas e refletem-se nos canais e nas pessoas que caminham animadamente pelas ruas estreitas e lojinhas de artesanato. Atravessamos a Ponte Japonesa, uma outra beleza histórica do lugar, que foi construída em madeira por volta de 1600 para facilitar o comércio entre as comunidades japonesa e chinesa. Estátuas de cachorros guardam uma de suas entradas e estátuas de macacos, a outra, e determinam o ano de início e término da construção da ponte pelo calendário chinês. Parece que o tempo parou em Hôi An e essa tranquilidade nos inspira a caminhar vagarosa e calmamente para observar seus detalhes. As vendedoras de verduras e legumes no mercado central, que sentam com seus cestos sobre as calçadas. As pequenas embarcações de pescadores que percorrem o Rio Thu Bon ou que aguardam pacientemente nas suas margens pelo passeio com turistas que desejam conhecer a cidade sob outro ângulo. As casas amarelas de dois andares, que servem de moradia e também de comércio. A arquitetura bem preservada que mistura o estilo colonial francês, templos chineses, pagodas e casas vietnamitas e evidenciam o legado deixado pela diversidade cultural do tempo em que era um importante porto. A iluminação que enriquece o cenário e que é formada predominantemente por lanternas vermelhas, que na cultura vietnamita representam alegria e lealdade. Como é gostoso se deixar envolver pela atmosfera pacata dessa cidadezinha tão charmosa e única, que nos envolve como um forte abraço.
A neblina da manhã ainda cobria o horizonte quando deixamos Kilpisjärvi para trás. Enquanto o carro percorria a estrada rumo à cidade de Tromsø, na Noruega, eu mergulhava nas cenas bucólicas que passavam pela minha janela. E elas se descortinavam exatamente como eu via nos meus sonhos de Lapônia. Neve sobre a rodovia, nos galhos secos das árvores e nas moradias modestas e charmosas cujos habitantes não se faziam notar. A solidão que aquelas casas inspiravam me levaram a pensar no nosso guia Martti e na sua esposa, Sinikka. Na tarde anterior, depois de uma longa caminhada em meio à natureza do lugar, eles nos levaram a uma cafeteria e ofereceram café e uma fatia de bolo para acompanhar nossa conversa. E então falaram sobre seu modo de vida e sobre a importância de se gostar do frio, do isolamento e da escuridão que chegam com o inverno para conseguir viver sob essas condições. E como eles aguardam ansiosamente por essa época do ano para ouvir o silêncio, descansar, ler e preparar as comidinhas da estação. Eu refletia sobre o quanto Kilpisjärvi parecerá ainda mais bonita sempre que eu me lembrar dos dois quando fui interrompida pelo motorista, que nos sugeriu observar as mudanças gradativas de clima e vegetação que acontecem ao longo do caminho. A estrada E8, que liga Tornio, na Finlândia, a Tromsø, é sem dúvida uma das mais cênicas que eu já viajei. Talvez se equipare em beleza ao trajeto de Banff a Jasper, no Canadá. Criada inicialmente apenas para o trânsito de renas e trenós, a estrada foi implementada pelas tropas alemãs que ocupavam a Noruega durante a Segunda Guerra Mundial, a fim de possibilitar o tráfego rodoviário das fronteiras nacionais. Hoje, é uma importante rota de comunicação entre noruegueses, finlandeses e suecos. A percepção das diferenças apontadas pelo motorista acontece quando a vegetação típica de floresta da Finlândia dá lugar às exuberantes e espetaculares montanhas da Noruega. Algumas delas com o privilégio de ver a própria beleza refletida nas águas límpidas e gélidas que ficam aos seus pés. Contempla-las durante a viagem é descobrir que aquele que ama a natureza, da qual também faz parte, nunca está completamente só.
A possibilidade de vê-la era remota. O céu estava completamente encoberto. O que era uma condição nada favorável à nossa aventura. Ainda assim, eu tinha esperança. Eu não teria viajado milhares de quilômetros se ela não me acompanhasse. Mas era uma esperança seguida de inquietação. E acho que o Eerikki, nosso guia, especializado em sobrevivência na natureza selvagem e entendido de meteorologia, tinha também algum conhecimento em psicologia, pois ele rapidamente percebeu minha ansiedade e me tranquilizou. Ele disse: “Nós só precisamos buscar um céu limpo, livre de nuvens, e então estaremos mais próximos de alcançar nosso objetivo”. Com a esperança renovada, eu logo percebi que o passeio poderia se transformar em uma viagem bastante longa. A gente entraria no carro e percorreria a rodovia meio sem rumo, não à procura de um lugar específico, mas de qualquer local que oferecesse um céu límpido. E a julgar pelo que eu via naquele momento, isso poderia levar muito, muito tempo. Uma vez dentro do carro, eu não tirava os olhos do céu. Nunca se sabe quando e onde ela pode aparecer. Passados quarenta minutos na estrada escura, já era possível ver uma estrela aqui e outra ali. E então, repentinamente, o céu estava cravejado de pontinhos luminosos. A Lua, baixa e brilhante, refletia-se no delicado riacho que corria ao lado da rodovia. Nós estávamos livres da neblina e agora podíamos descer do carro e esperar. Três horas depois e nada dela, a Dama da Noite. A gente estava cansada e com frio. Os meus pés doíam, mesmo calçados com meias térmicas e botas especiais, e eu tremia de medo só de pensar que eles poderiam congelar. O desgaste era tamanho que eu já não me importava em voltar para o hotel. Eu torcia para que o guia desistisse da espera e nos levasse de volta ao aconchego e aquecimento do nosso chalé. Porém, contrariando a minha expectativa, ele acendeu uma lanterna no mais completo breu e nos conduziu até uma ponte. E então, pediu-nos para esperar um pouco mais por uma possível atividade. Ele parecia saber de alguma coisa. E considerando a sua vasta experiência, eu não ousaria duvidar que ele realmente soubesse. Saariselkä, a pequena cidadezinha no Norte da Finlândia, que ele escolheu para morar e trabalhar, e que nós escolhemos como ponto de partida para nossas caçadas à Aurora Boreal, está localizada na região da Lapônia, próxima ao Círculo Polar Ártico, e, por essa razão, é considerada um dos principais destinos para quem busca encontrar as Luzes do Norte, ou Northern Lights. A expertise do Eerikki ficou evidente quando sua persistência foi recompensada. Ele afirmou que havia alguma coisa acontecendo no horizonte, enquanto nós só víamos uma mancha branca que poderia perfeitamente ser uma nuvem. Mas então nós vimos. Nós vimos quando essa mancha passou a um tom de verde bem clarinho e, subitamente, transformou-se em um arco, cuja cor verde aumentou de intensidade e iluminou-se. As luzes do Norte. Uma Aurora Boreal, ainda que timidamente, materializou-se diante de nossos olhos incrédulos. De repente, nós havíamos esquecido do cansaço, das dores e tínhamos olhos e pensamentos voltados para o céu. O guia ficou especialmente feliz com a nossa realização e registrou o momento com algumas fotos. “Não se mexam. Não se mexam”, ele pedia, para que o tempo de exposição ao obturador da câmera pudesse registrar a Aurora Boreal como pano de fundo dos nossos sorrisos emocionados. Nas duas noites seguintes, ainda na Finlândia, nós não tivemos a mesma sorte e as outras caçadas foram infrutíferas, mas a permanência no país foi inesquecível. Nós estávamos de férias e desfrutamos de bons momentos em caminhadas silenciosas pela floresta e sentadas ao redor de fogueiras, bem abastecidas com sopa de carne e legumes e chocolate quente e de histórias e lendas envolventes sobre A Dama da Noite. Seguimos nossa viagem até um de seus vizinhos, a Noruega. A cidade de Tromsø, na região Norte do país, está mais próxima do Círculo Polar Ártico e, portanto, oferece condições perfeitas para a visualização do fenômeno celeste mais bonito do mundo, sendo reconhecida como a capital mundial da Aurora Boreal. Esse espetáculo único de luzes, cores e movimentos é desencadeado quando partículas solares rompem a atmosfera terrestre. O Sol, além de emitir luz e calor, também emite ventos que estão repletos de partículas. Quando essas partículas são atraídas para os polos do planeta pelos campos magnéticos, e interagem com os gases presentes na atmosfera, surge a Aurora Boreal. A luz verde é emitida pela interação dessas partículas com o oxigênio. Enquanto a coloração púrpura vem do contato com o nitrogênio. Na noite da caçada, nós saímos com mais vinte pessoas dentro de um ônibus, para longe das luzes artificias da cidade. Nada do glamour do carro e do motorista privativos. Isso só para nos mostrar que, independentemente do meio de transporte, é preciso certa dose de sorte para se estar no lugar certo quando acontecem as atividades solares. Enquanto esperávamos horas a fio olhando para o céu, eles nos serviam chocolate quente e cookies maravilhosos. Durante a madrugada, uma faixa de luz verde apareceu no céu e as pessoas começaram a se agitar. E eu sentia como se não houvesse nada mais no mundo além de mim e do céu. E então, quando as luzes cobriram as nossas cabeças e começaram a dançar vertiginosamente, em variações de verde e tons de púrpura, eu congelei. Eu as olhava de boca aberta e repetia em pensamento: “O que tá acontecendo aqui? Não pode ser. Não pode ser”. A mágica estava acontecendo. Um sonho se realizando. Com movimentos delicados, suas ondas luminosas desenhavam formas alucinantes. Começou de um lado. E depois apareceu também no outro. E então no centro, para onde se convergiram formando uma boca enorme que parecia querer me engolir. E engoliu. Ou melhor, sugou. Eu estava petrificada. Hipnotizada. Era como se toda a minha energia estivesse nela. E estava. As luzes do Norte refletidas nos meus olhos. Pouco a pouco, então, à medida em que essas luzes se apagavam e suas formas se desfaziam como castelos no ar, a energia voltava ao meu corpo. Duplicada. Triplicada. Era muita adrenalina. Eu queria rir e chorar e gritar e pular. Eu queria que ela começasse de novo e fizesse sua mágica outra vez. Mas ela se fora, completamente. Na verdade, não completamente. A Aurora Boreal agora acontece no céu das minhas lembranças.
Depois de duas horas de estrada a partir de Montevidéu, capital do Uruguai, chegamos à charmosa cidadezinha Colônia del Sacramento. A nossa vontade de bater perna pelo seu famoso bairro histórico é tamanha que corremos deixar nossas coisas no quarto do hotel e saímos para percorre-lo. Aqui é possível pular aquela parte do check-in em que a recepcionista nos entrega o mapa local e oferece recomendações de segurança. Caminhar pelas ruas tranquilas de pedra em meio aos vestígios da cidade antiga é uma atração por si só. Reconhecida pela Unesco como Patrimônio da Humanidade, em 1995, devido ao trabalho de restauração que garantiu a autenticidade e a preservação das construções, Colônia logo nos envolve na sua acolhedora atmosfera e nos ensina a desacelerar os passos e, sobretudo, os pensamentos. Banhada pelo Rio da Prata, onde também faz divisa com Buenos Aires, ela é acima de tudo fotogênica. O colorido das flores, as mesinhas externas dos restaurantes e cafeterias e as casinhas coloniais nos inspiram a flanar e absorver seu ar histórico, poético e romântico. Fundada em 1680, a mando do Império Português, para abrigar um presídio militar e alvo de disputas com a Espanha, a cidade revela através de sua arquitetura as influências deixadas pelos dois países, entre os séculos XVII e XVIII. Esse misto de traços evidencia a luta que travaram pela permanência. A rua mais emblemática, a Calle de los Suspiros, mantém-se exatamente como era há três séculos. A origem de seu nome, contudo, ainda é uma incógnita. Alguns dizem que os suspiros vinham dos homens que cobiçavam as jovens prostitutas que ali trabalhavam. Ou das próprias mulheres. Outros, dizem que os suspiros eram dados por condenados à morte, a caminho do Rio da Prata, onde eram executados. E a terceira, a de que uma jovem, à espera do amado, fora assassinada por um homem mascarado e deu ali o seu último suspiro. Mas o que desperta mesmo o interesse pela rua é constatar que ela sobreviveu às ações do tempo e dos homens. Depois de atravessá-la, visitamos a igreja local, a Basílica do Santíssimo Sacramento, e subimos no Farol. Construído no século XIX e hoje transformado num mirante, o lugar oferece uma vista privilegiada para a vastidão e beleza do Rio da Prata. E pensar que no passado essas águas pacíficas eram uma importante rota comercial, inclusive para o tráfico de escravos. Observa-lo me faz lembrar do poema “Mar Português”, de Fernando Pessoa: “quanto do teu sal são lágrimas de Portugal”. Aqui, quanto dessas águas são lágrimas de dor, sofrimento, revolta e incompreensão. Antes de assistir ao pôr do sol, considerado imperdível, percorremos o Portón de Campo, a muralha que foi reconstruída com as pedras usadas para fechar seu fosso. À noite, as luzinhas dos diversos restaurantes conferem uma atmosfera ainda mais intimista e encantam os turistas que lotam suas mesas. Mas, de fato, é o pôr do sol o seu atrativo mais fascinante. Quando o momento se aproxima, os turistas começam a caminhar rumo às margens do rio e então tomam seus lugares sobre o gramado. Variações de amarelo e laranja colorem o céu e também o tapete de água que as refletem. A quietude e o estado contemplativo das pessoas enriquecem o cenário. E quando o sol se põe completamente, um tom de rosa sobrenatural me faz acreditar que o céu já não é o céu, mas uma tela cuja pintura foi concebida pelas mãos de Deus. E então eu descubro que nada aqui poderia me comover mais. Assim como os campos de trigo lembram a raposa dos cabelos dourados do Pequeno Príncipe, um pôr do sol sempre me fará pensar em Colônia del Sacramento.
“Parece um sonho que ela tenha morrido!”, diziam todos… Sua viva imagem tinha carne!… E ouvia-se, na aragem passar o frêmito do seu vestido… E era como se ela houvesse partido e logo fosse regressar da viagem… – até que em nosso coração dorido a Dor cravava o seu punhal selvagem
Mas tua imagem, nosso amor, é agora menos dos olhos, mais do coração. Nossa saudade te sorri: não chora… Mais perto estás de Deus, como um anjo querido. E ao relembrar-te a gente diz, então: “Parece um sonho que ela tenha vivido!”
Foi durante uma visita ao Museu de Arte Ateneum, em Helsinki, na Finlândia, que um novo artista passou a fazer parte da minha lista de pintores preferidos. Albert Edelfert. Eu desconhecia sua existência até descobri-na expressão de desolação e tristeza no rosto da menina de uma de suas telas. Uma expressão que me fez chorar. “Conveyng the Child’s Coffin” (“Conduzindo o caixão da criança”) é o nome da obra que provocou em mim uma imediata empatia com a garota que parece segurar tão fortemente um frágil e delicado ramo de flores, como se assim pudesse tê-lo consigo para sempre. Como se estivesse sob seu controle o tempo das coisas. Ou como se pudesse transferir para o buquê o grito contido. O sentimento não compreendido. As perguntas sem respostas. A impotência. E a incapacidade de corrigir o que certamente foi um erro do Universo. O seu semblante e o seu olhar perdido me fizeram voltar àquele mesmo vazio onde ela está nesse momento. O vazio para onde são levadas as pessoas que perdem o chão. Que perdem o rumo. Que constatam como é difícil mergulhar nas lágrimas que escorrem do rosto e da alma. Que se sentem desamparadas. Sozinhas. Perdidas. E que desnorteadas tentam desesperadamente encontrar uma saída. E então descobrem que não há saída. Nem de emergência. E que o único meio de voltar ao mundo dos vivos é cavar uma abertura com as próprias mãos, as mesmas que agora tentam encontrar um apoio que lhes impeça a queda. Albert Edelfert. O artista que morreu em agosto de 1905, aos 51 anos, foi um dos precursores no movimento de arte realista na Finlândia e um dos primeiros finlandeses a conquistar fama mundial. A imagem da família que transporta no barco um pequeno caixão foi completamente recriada pelo pintor ao ar livre, assim que a cena passou diante dele. Como afirmou um dos críticos de seu trabalho, Edefert era “talentoso na arte de retratar os sentimentos”. Eu soube disso no exato instante em que coloquei os meus olhos sobre aquela pintura.
Passeio pelas ruas de Saigon, ou Cidade de Ho Chi Minh, a maior e mais importante e movimentada cidade do Vietnã, e descubro como fazia dela uma imagem completamente diferente. É possível que eu tenha ficado tempo demais sob o intenso bombardeio de filmes produzidos pelo mundo ocidental para representar, sob a ótica deles, a guerra que durou trinta anos e que continuou a provocar sofrimento mesmo após seu fim. No meu imaginário, influenciado por figuras como o Rambo, Saigon estava longe de ser tão interessante e atrativa. Com oito milhões e meio de habitantes, o campo de batalha atual é o seu tráfego caótico. Principalmente, devido às inúmeras motocicletas alucinadas que percorrem ruas e avenidas. Enquanto elas passam apressadamente por mim, ziguezagueando pedestres e obstáculos, eu caminho reta como uma flecha, sem olhar para trás. Sobre a calçada, à espera do momento exato para atravessar uma avenida, percebo que observar os motociclistas é uma atração à parte. Quase todos usam máscaras de proteção contra a poluição, mas à direção parecem contar com a sorte ou com a proteção de Buda, embora sejam assustadoramente habilidosos frente ao desafio de não tombarem em combate. Sigo meu trajeto. Visito um shopping sofisticado. Caminho pelas ruas e vejo lojas de grifes de luxo, vendedores ambulantes, camelôs e mendigos. O inconfundível e tradicional chapéu cônico, o Nón Lá, que eu imaginei ver apenas nas zonas rurais, é também aqui muito usado. O Sol é realmente forte. Entro numa cafeteria e vejo adolescentes matando o tempo e fazendo selfies com amigos. Percorro parques lindos e bem cuidados onde as pessoas praticam tai chi chuan e brincam com as crianças. Os vietnamitas nos observam com discrição, mas se os surpreendemos esboçam um simpático sorriso. O atendente do Mc Donalds me faz rir quando recusa meu pagamento em dólar. Almoço num restaurante que mudou seu nome para 2000 quando recebeu, nesse ano, a visita do ex-presidente Bill Clinton. Os museus preservam um rico acervo histórico sobre suas guerras e há bandeiras do país e retratos de seu ex-líder, Ho Chi Minh, espalhados por toda a cidade. […] Saigon tem edifícios imponentes e conserva muitos prédios em estilo clássico da época em que esteve sob o domínio francês, como a Agência Central dos Correios, a Catedral de Notre Dame e a Saigon Opera House. Tento comprar um souvenir em Cho Ben Thanh, o mercado local, mas ele é claustrofóbico. Os corredores são estreitos, os boxes amontoados e os vendedores insistentes. Apenas 8% da população é católica, mas os enfeites natalinos estão por toda a parte. Tomo uma sopa de noodle, ou pho, o prato mais tradicional e famoso, que inclusive estampa camisetas e canecas vendidas aos turistas nas lojas e barraquinhas de rua. Descubro como a cosmopolita Cidade de Ho Chi Minh protege sua história e vive orgulhosa e intensamente seu presente, sem deixar de olhar para o futuro. É uma cidade de contrastes, como toda metrópole. Tem opulência e miséria. Bagunça e organização. Tumulto e tranquilidade. Discrição e extravagância. E a capacidade de despertar o amor ou o ódio de seus visitantes. O que vai determinar um ou outro sentimento, ou um misto dos dois, serão as andanças de cada um. E também o que seus olhos serão capazes de ver. E enxergar.